Sábado, 08 de Dezembro de 2018 - 05:01

O PLANO SECRETO

por Carlos Ribeiro

O PLANO SECRETO
Foto: Arquivo pessoal

 O homem tomou o táxi, em frente ao Sanatório São Paulo, no Aquidabã. Não cumprimentou o motorista, limitando-se a dizer secamente.

– Barra, por favor. Rápido.

Olhou a pedra que levava numa pasta preta. Pensou que era bom ter com o que se defender, com tantos loucos varridos andando aí pelas ruas.

– Por onde o senhor quer ir? – perguntou o motorista, que tinha o mau hábito de mastigar um palito, jogando-o para um lado e outro da boca.

Apontou em direção à Baixa dos Sapateiros. Iriam pela Rua da Independência até a Joana Angélica, desceriam a Ladeira da Fonte Nova, contornariam o Dique, seguiriam pela Vasco da Gama, retornariam pelo Rio Vermelho, passariam por Ondina, pegariam a Centenário e...

– Bem... o patrão é quem manda – disse o motorista.

– Rápido. O tempo ruge – disse o homem, olhando-o de relance. Estranhou a cor pálida do taxista, os cabelos escorridos, o bigode preto – que lhe pareceu falso –, os óculos escuros. Desviou os olhos para fora. Observou as pessoas que passavam. Chamou-lhe a atenção um entregador de pizzas, de cor estranhamente esbranquiçada, magro, de cabelos lisos e gestos bruscos, esquisitos. Dirigia uma moto, que desapareceu numa esquina. – Estranho – murmurou, quase como se falasse consigo próprio. – Poderia jurar que era o Ousborne.

– Ousborne?

– Sim, o Ozzy. Ficou uns segundos em silêncio, como se matutasse alguma coisa muito séria, e acrescentou.

– Mas que coisa mais esquisita: Ozzy Ousborne entregando pizzas, aqui, em Salvador...

– É... bota esquisito nisso – disse o motorista sorrindo para ele, que se manteve, no entanto, sério. Melhor dizendo: compenetrado.

O carro parou numa sinaleira. Uma babá morena, alta, de pernas esguias, passou, pela faixa de pedestres, empurrando o carrinho de bebê.

– Você viu?

– O quê?

– Aquela mulher. Que Trump lance um míssil sobre a minha cabeça se não era a Lady.

– Lady?

– Gaga. Ora, não se faça de desentendido.

O motorista pigarreou. Engrenou a primeira. Passavam no Largo de Santana quando o homem exclamou, agora visivelmente excitado.

– Pelas barbas do mulá se aquele não é o Jagger!

– Quem?

– Mick Jagger. Você não sabe? Ali, dirigindo o caminhão da Brasilgás. O motorista, um pouco nervoso, virou a cabeça, mas o caminhão já havia desaparecido em direção ao Politeama.

– Mas... você... ele... – o motorista não sabia o que dizer.

O passageiro estava visivelmente agitado. Alguma coisa muito estranha está acontecendo aqui – pensou ele, tentando lembrar de onde conhecia o motorista, que evitava, agora, encará-lo. O que poderia fazer com que todas aquelas celebridades estivessem ali, disfarçadas, como pessoas comuns? Lembrou-se de ter ouvido algo a respeito das ameaças feitas, por sobreviventes do Estado Islâmico, a artistas proeminentes da Europa e dos Estados Unidos. “Alá os transformará em pó!”, teria dito, se não lhe falta a memória, o próprio Abu Bakr ao-Baghdadi, em carne e osso e barba. Teria havido, desde então, uma migração em massa dos astros para os chamados “países periféricos”, adotando nova identidade – identidades que não despertassem nenhuma suspeita.

– Hum.

– O que foi?

– Então é isso! – disse ele, olhando o motorista, que apertou os lábios e franziu o nariz. Havia um leve nervosismo nas mãos dele. Observou que acelerava mais o carro, ansioso para chegar ao destino. Mas não o deixaria escapar, não sem que antes ele confessasse.

– E então? Você vai ou não vai confessar?

– Confessar o que, meu amigo, pelo amor de Jesus Cristo?

– Que você é o McCartney.

– Você está doido!

– Querendo me enganar, hein? Confesse, McCartney, que você veio pra cá por causa do al-Baghdadi. Tirou a pedra da pasta. – Confesse, ou eu explodo sua cabeça com o meu tomahawk!

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