Sábado, 28 de Julho de 2018 - 10:00

Debaixo dos Cílios Negros

por Florisvaldo Mattos

Debaixo dos Cílios Negros
Foto: Arquivo pessoal

RIO REMOTO
 
 
No momento da morte
ouvirei a canção.
Ela cresce como árvore.
Agora pelos caminhos
furando-me os ouvidos
as pálpebras a fronte
ela dispara seu grito
de ave-soluço na tarde.
 
Trêmulo engaste de flautas
concretizando no azul
ouço-a no branco das casas
em unânime presença.
Estático e frio ouço-a
(pássaro transpondo linhas)
laborada em precipício
concreta e interminável.
Remota água no tempo.
 
 
 
 
LIMITE DO MAR
 
 
Dragão de algas no azul
gravita o silêncio
devorando a paisagem.
 
Plenitude invasora
de evanescentes corolas.
Desnudam-se os momentos
de bruma densos
em marcha para a noite.
 
Apenas tempo
                mar e eco
dissolvo-me em fronteiras
de penumbra e ausência.
 
 



 
DEBAIXO DOS CÍLIOS NEGROS
 
 
Debaixo dos cílios negros
passaram águas pesadas.
Não eram longínquas vozes,
eram líquidos momentos,
era a esperança grimpada
em lombo de potros árdegos.
 
O beijo todo de som
da magnólia nascia.
Entre crepúsculo e pedra
na fonte ficou o cântaro.
 
A solidão povoa
a estrada poeirenta
de ladeiras vermelhas.
 
O beijo nasceu no morro
onde o pássaro caiu
embebido no silêncio
da surda manhã  sem sol.
O beijo trouxe o remorso
do momento além do corpo.
 
 
 



ROSA DO SONO
 
 
Não mais a perene planície
em fuga para o azul.
Nem a espera e o cansaço
terrível devorando
corpo rolado na terra
com pássaros e naves
no olhar residentes.
 
Da noite apenas
(ou poço) imóvel
arranco e contemplo
pesada e sem ritmo
a rosa do sono.
 
Ó som de submarino sítio
esculpido no ar da noite.
Não mais o cântico das águas
o rosto gravado na árvores
lavado de sombra e de vendo.
 
Sob o céu grávido de espanto
os homens ávidos de paz
insones contemplam
a rosa do sono.

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