Sábado, 07 de Julho de 2018 - 05:03

AVENTUREIROS DO APOCALIPSE

por Carlos Ribeiro

AVENTUREIROS DO APOCALIPSE
Foto: fragmento da capa da Mondrongo
PREFÁCIO DE ANTONIO TORRES
 
Eis aqui uma amostra primorosa do talento de Carlos Ribeiro, o baiano que, já na sua estreia, em 1981, foi saudado pelo premiado poeta e ficcionista Ruy Espinheira Filho como “uma forte e apaixonada vocação de escritor”.  De lá para cá ele já imprimiu a sua marca no conto, na crônica, novela, romance, reportagem e no ensaio, sempre se desempenhando em todos esses gêneros “à altura da dignidade da arte de escrever”.
Os nove contos reunidos em Aventureiros do Apocalipse confirmam as suas qualidades de contista que alguns críticos argutos, e bem atentos, têm destacado ao longo de sua carreira. Como a individualidade/ personalidade com que ele cria o clima das histórias, e o seu invejável e raro controle da escrita, para recorrer à abalizada avaliação de um Affonso Romano de Sant’ Anna. 
O autor destas linhas assina embaixo de todas as apreciações já feitas sobre a arte do conto tão bem praticada por Carlos Ribeiro: linguagem ágil, inventiva, que se constitui na força da oralidade; domínio na criação e estruturação de personagens e dos diálogos; inserção no transe urbano, ao mesmo tempo com um olhar lírico e perverso, de que o conto Imagens urbanas é um caso exemplar - ora a captar uma realidade de violência (“Venham se meter comigo, filhos de uma cachorra pra ver se não lhes meto uma bala nas fuças”), ora em tons mais amenos: “O homem anda pelas ruas desertas do seu apartamento (...) e ele sente uma saudade indefinida de um tempo em que podia andar pelas ruas desertas sem medo de morrer”. 
Sim, a cidade (no caso, uma Salvador da Bahia sem farofa nem dendê) povoa a maioria dos relatos deste livro, sempre envolventes, por vezes nos deixando reféns de suas tramas. E estas, diga-se, não são apenas centradas na vida, destino e desatinos da urbe contemporânea: a ambiência aqui é bem variada, desde incursões pela órbita do supra-real (O fugitivo dos sonhos, por exemplo), aos diálogos com Guimarães Rosa (Traços biográficos de Salino Lalãtiel), e Machado de Assis (Minha boa senhora, um exercício criativo crudelíssimo, por sinal).  E mais e mais, para o prazer da sua leitura.




A MAIS LINDA PAISAGEM DO MUNDO
 

Recebi ontem a visita do meu irmão. Eu morava, naquele tempo, em Itapuã, próximo à lagoa do Abaeté, onde, segundo dizem, havia uma famosa serpente que nunca mordeu ninguém, e sobre a qual ninguém nunca nada ouviu falar. Ele, meu irmão, não a serpente, bateu com a mão espalmada no meu ombro, como nunca costumava fazer, e apresentou-me sua nova mulher, a desconhecida atriz Sandra Bréa que fazia um sucesso dos diabos na TV. Fiquei, claro, surpreso por ele chegar, após tantos anos, sem avisar, além do que com aquela visita tão ilustre – e indiquei o interior da casa, onde minha mulher, René de Vielmond, encontrava-se a varrer uns cacos que os pequenos andaram a quebrar. Senti-me um pouco ridículo ao apresentá-las, ao que logo juntei: mas, que bobagem a minha, é claro que vocês se conhecem, visto que, pelo que me lembre, jamais tenham trabalhado juntas, não é mesmo? Para minha surpresa, elas, de fato, não se conheciam, embora pudesse quase perceber alguma rivalidade surda na forma como se cumprimentaram. René em franca desvantagem por estar, àquela hora da noite, com o avental sobre o jeans, a juntar os cacos que os pequenos nos fizeram o favor de quebrar. 
Seguimos para o quarto do fundo, de cuja janela podíamos apreciar o azul fulgurante do mar que resplandecia da varanda até aquelas ilhas altas que o tempo esquecera de varrer, localizadas no outro lado da rua, a 106° a leste do Morro da Vigia. Eu sempre fazia questão de levar as visitas para aquele aposento e, como se achando a coisa mais simples do mundo, esperar que se extasiassem com a paisagem.
A paisagem mais linda do mundo!
Meu irmão, com quem cheguei à frente dos demais, fingiu não percebê-la, o que, devo dizer, não me surpreendeu tanto. Ele sempre ocultou seus sentimentos. Fiquei, por alguns segundos, triste pela indiferença, pela dissimulação, mas logo meu rosto iluminou-se quando Sandra exclamou: Mas, que coisa impressionante! Esta é realmente a paisagem mais linda que já vi em toda a minha vida!
René, aproveitando o deslumbramento da rival, deslizou pelas escadas em caracol, para o quarto de onde retornou metida num belo vestido azul-estrelado, que parecia, aliás, querer competir com a paisagem. Sussurrei-lhe ao ouvido: você, meu amor, é a mulher mais linda do mundo. Enquanto percebia, com o rabo do olho, as pernas longilíneas de La Bréa, que sempre me fascinaram, pela TV, embora jamais as tivesse visto. (As coisas mais estranhas sempre acontecem pela TV). Eu, que sempre assumira meu estilo informal, com minhas bermudas cheias de bolsos e minhas camisas havaianas, cuidei dar alguma atenção para o meu irmão que, àquela altura dos acontecimentos, estava a examinar os livros da estante, detendo-se sobre um volume do Dr. Samuel Johnson.
Não há problema criado pela mente humana que a mente humana não possa resolver, sentenciou, na lata, recuperando a segurança que nunca teve. Eu conhecia a citação em um filme do Sherlock Holmes, na irretocável interpretação de Basil Rathbone, assim como tinha ouvido outra frase lapidar do famoso dramaturgo e filósofo inglês em um filme de Kubrick: O patriotismo é o último refúgio dos canalhas, pela voz de Kirk Douglas, de forma que pude dizer, com grande familiaridade, ah, o Johnson era mesmo um grande frasista.
Ontem li A consciência de Zeno, meu irmão retrucou, pegando causalmente o volume de Os vagabundos iluminados, e fiquei matutando se ele de fato lera o livro ou se estava apenas a citar um trecho meio que ao acaso. Vasculhei minha mente em busca de algum filme sobre aquele livro. Inutilmente. Sem ter o que dizer, retirei da estante um exemplar da biografia de Sir Richard Burton por Edward Rice, e, quando ia mostrá-lo, ele mudou de assunto perguntando se eu havia assistido àquele filme de Bertrand Tavernier... como é mesmo o nome?...
Assim é dose, pensei. Discretamente, acessei o Google no meu celular, e disse com o ar mais aéreo que pude encontrar: aquele filme sobre um saxofonista americano negro na Paris dos anos 50?
Não respondeu.
Sandra Bréa aceitou o chá de camomila que René lhe serviu numa xícara de porcelana da Mandchúria, o que fez o meu irmão exclamar, de forma teatral, abrindo os braços: ora, minha querida René, você parece mesmo saber o que nos vem ao pensamento! E sempre de forma tão elegantemente, como diria... delicada! René sorriu, como se nunca tivesse ouvido um elogio, e anunciou o lanche que jamais poderia estar ali.
Esqueci os livros que, aliás, jamais lera e pensei, por intermináveis frações de segundo, se seria pecado propor ao meu irmão uma troca de patroas. René, como se me adivinhasse os pensamentos, sorriu encantadoramente. Empurrei meu irmão para longe das estantes, enquanto, na varanda, o céu explodia em galáxias e nebulosas. Vê ali?, apontei para um ponto qualquer do Cosmos limitado e infinito, ali está a Nebulosa espiral barrada, cujos braços... (Google) formam ângulos retos. Não preciso dizer que todos ficaram boquiabertos – até que se ouviu o espoucar – pop! – da rolha e o champanhe borbulhando nas taças. Percebi, naquele momento, que meu irmão já estava se sentindo “em casa” e que seria necessário impor-lhe algumas formalidades: comecei por lembrar-lhe a Invasão de Senaquerib, rei da Assíria, que papai nos obrigava a ler, com inusitada frequência, a cada dois anos e meio. “Quando Ezequias viu que Senaquerib vinha chegando e que a intenção era atacar Jerusalém, resolveu, com os oficiais e guerreiros de elite, obstruir todas as águas das vertentes que havia fora da cidade. E todos colaboraram com ele...”. Ponto. Guardei as demais garrafas, e, com desassombrado desapego, taquei-lhe o cadeado no freezer. La Bréa, àquela altura, ria pelos cotovelos, o que, não sei como, refletia-se nas coxas, entrevistas no decote.
        – Gostei muito da sua atuação naquela novela... a... como é mesmo o nome? – sorri amarelo.
        – Todas as novelas são a mesma – sentenciou, ela, com surpreendente lucidez. Por um ou outro motivo, a verdade é que me senti definitivamente fisgado, o que me fez ver as nebulosas ainda maiores e infinitamente mais grandiosas, como se isto fosse possível.
        – Não é mesmo uma linda paisagem?
        – Oh, sim, é a mais linda paisagem do mundo!
        Fosse isto fruto do decote, do riso, do luar, das estrelas, do oceano prateado, dos coqueiros farfalhando ao vento, do burburinho, do champanhe cada vez mais borbulhante, percebi, naquele momento, que a paisagem mais linda do mundo estava a dois palmos dos meus olhos, na forma de um rosto comprido, de lábios carnudos, de um sorriso que englobava todo o universo, de cabelos curtos, castanhos, sobrancelhas perfeitíssimas coroando olhos penetrantes, braços e pernas compridos, esbeltos – e os seios perfeitos, naturalíssimos, sobressaindo no decote generoso, abaixo do colar de diamantes. Era uma paisagem irreal que fazia empalidecer tudo o mais em volta, fazendo-me perceber, de súbito, feroz e mortalmente, quanto inútil e absurda fora a minha vida até ali. E, como se não fosse suficiente, o perfume suave que envolvia todo o ambiente e que me fazia levitar, ausente de todo e qualquer peso: físico, moral, existencial.
        – As nebulosas não tem cheiro – murmurei. E aquela me pareceu ser a maior descoberta já feita ao longo de éons, ou mesmo de toda a eternidade. As nebulosas... não tem cheiro. Ou, para ser ainda mais preciso, as nebulosas – todas as nebulosas – estavam contidas naquele perfume que se expandia por todo o espaço-tempo. La Bréa era o OM, o indizível.
Estava na plenitude dessa descoberta – a mais transcendental de todas as descobertas já feitas até então – quando uma frase, uma mísera e sórdida frase, me fez despencar das alturas ao rés-do-chão.
        – Alguém está tocando a campainha.
        – O quê?
        – A campainha! Alguém está tocando a campainha!
Atravessei a sala, incontinenti. Abri a porta. Vi, à minha frente, os óculos redondos de ninguém menos que John Lennon. Atravessou a sala, impertérrito. Parou em frente à varanda, olhou demoradamente a paisagem, e, como se só então caísse em si, exclamou:
        – This is the most beautiful landscape in the world!
        Não sei por que, percebi que a noite não seria mais a mesma. E que algo de infinitamente valioso se perderia, irremediavelmente. René, aproveitando o desconcerto geral, deslizou pelas escadas em caracol, para o quarto de onde retornou metida num vestido azul ainda mais estrelado, que parecia, aliás, querer resistir ao esquecimento. Meu irmão, mais perdido que sardinha em dia de tubarão, sacou uma frase espirituosa, que quicou no piso da sala até perder-se num canto qualquer debaixo do sofá. Quis, melancolicamente, retomar a conversa com Sandrinha, que, juntamente com René, esmeravam-se em oferecer petiscos ao ex-Beatle, cujo nariz fino e cabelos escorridos me faziam, não sei por que, lembrar-me de uma fuinha – aquele mamífero da família dos mustelídeos que penetra, na calada da noite, nos galinheiros alheios para devorar as penosas. René, mais depressa que aconselhava a etiqueta, disponibilizou o violão de um dos nossos pequenos, e logo acresceram às nebulosas e ao vasto oceano, as notas musicais de uma cançoneta. In english, o que me soou mortal.
        – Não sei falar inglês – sussurrei ao meu irmão.
        – Somos mais desafinados que o Papa no Carnaval – disse ele.
        Fomos, com nossas taças já não mais borbulhantes, para a varanda. Tentei, com meus parcos recursos, elogiar a beleza de La Bréa e o bom gosto do meu irmão. “Logo você, que sempre me pareceu um imprestável”, acrescentei. Ele, por sua vez, censurou-me a imperdoável cegueira. “René, com seu rosto redondo, com seus cabelos curtos, com seu sorriso de menina e sua postura aristocrática, de nobreza ímpar, não tinha rival – nem no oceano prateado que se estendia perante nossos olhos, nem nas estrelas pulverizadas nas nebulosas”.
        E ficamos, os dois, ali, diante da varanda, ao longo das eras, censurando-nos, com palavras vis, a incapacidade de vermos o esplendor do fogo, que iluminava algum cantinho do Universo, num planeta perdido, atrás de alguma inexcedível galáxia.
 
 


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