Quarta, 27 de Junho de 2018 - 10:24

JUCA BENZENO EM BOQUIRA

por Carlos Navarro Filho

JUCA BENZENO EM BOQUIRA
Foto: Arquivo pessoal

  - Vou dizer uma coisa. Só vou dizer esta vez e se você repetir
eu nego. Morro jurando que não falei porque é coisa grande e
esse povo da mina é daninho, povo que mata, e quando não
mata embacia.

 

Juca Benzeno é um caboclo verboso, vendedor de fumo de
corda enrolado em Arapiraca, que apregoa ser o melhor do Brasil.
Desde o dia em que nasceu passa a vida viajando. É natural
de Santa Cruz da Baixa Verde, no sertão pernambucano, e fugiu
de casa aos quatro anos na carroceria de um caminhão de carvão.


Parou em Paulo Afonso e fugiu de lá aos nove anos. Parou
em Arapiraca adotado por um fazendeiro de fumo. Aí sentou
praça. Aprendeu a arte de enrolar as folhas em corda e seria
hoje o maior produtor de fumo do Nordeste não tivesse de
fugir mais uma vez para escapar de morrer pelo povo da família
de uma jovem a quem fez mal. Nesse tempo já era um homem
formado aos dezesseis anos e fi zera amigos entre os amigos do
fazendeiro Natalício, que o tinha acolhido ainda menino. No dia
em seguida ao ocorrido amanheceu e não anoiteceu. Dois anos
depois encontrou Josué, fi lho de outro fazendeiro de Arapiraca
vendendo fumo de rolo em Cajazeiras, na divisa da Paraíba com
o Ceará. Já eram conhecidos um do outro e resolveram fazer
comércio juntos. Com uma condição, não ia ter parada fixa. O
sócio entendeu e aprovou essa garantia toda porque o assunto
ainda ardia em Arapiraca. O combinado ficou assim: Josué nunca
falaria no nome de Juca com ninguém em Arapiraca, no estado
de Alagoas, ou em qualquer outro lugar. Josué atenderia os
pedidos feitos por carta e, quando fossem de urgência, por telegrama
pelo sócio que seria a partir do momento conhecido por
Robertinho de Belmiro. Recebeu a primeira encomenda de trinta
bolas levadas por trem de ferro até Iguatu, no Ceará. Quando
chegou, praticamente todo o fumo já estava vendido. Pegou na
estação com uma carroça e saiu para entregar. E ninguém mais
segurou Juca. Porém não estava feliz. Depois de seis meses e da
quinta remessa bem sucedida, ainda se pelava de medo do pai
da moça donzela que se gabava de mandar jagunço em qualquer
canto do sertão nordestino. Tratou de mudar de rumo, não queria
correr riscos. Deixou um representante em Iguatu e a encomenda
seguinte pediu para Juazeiro, onde também tinha trem.


A Bahia é grande e torna difícil missão de jagunço em território
tão amplo. Além do mais o mercado é maior.


Para convencer a clientela das qualidades do produto, costuma
descrever todo o processo de fabricação, desde a maturação
das folhas ainda na planta, o destalamento e a forma de enrolar.
Com uma vantagem, o fumo dele não fica pronto em cinquenta
ou sessenta dias, igual aos que são vendidos barato, custa um
pouquinho mais porque demora mais de três meses para sair
do trapiche. Só em Alagoas a gente faz isso, são pessoas da
minha família que é muito ciosa do fumo que prepara. Sem ter
olho grande, montou uma rede de representantes no semiárido
baiano e quase vinte anos depois se considerava um homem
realizado. Não era casado nem estabelecido que nem o amigo
Josué, mas fazia melhor, tinha as virações dele e uns quatro ou
cinco filhos espalhados na Bahia e em Sergipe. Se tem mais não
é do meu conhecimento. Agora trabalha pela estrada, a mercadoria
chega mais rápido de ônibus ou caminhão onde mando
chegar. Só não afrouxo na segurança e nem me aparto do meu
revólver. Comprar carro é caro e tem de deixar registro. Estou
muito bem como estou. E o nome? O nome pode ser que nem
seja Juca.


Depois da fanfarronice sobre as idas e vindas pelos sertões
da Bahia, vendendo fumo, namorando, de vez em quando tomando
carreira de marido corneado que esse Juca não se emenda
mesmo, fazendo o diabo para cobrar os fiados, como agora
mesmo em que tem trezentos e oitenta cruzeiros para receber
no armazém de Zizo de Serafim, e Zizo de Serafim não tem
dinheiro para honrar o compromisso de duas viagens anteriores
na compra de três bolas de quinze quilos cada uma, e só vai ter
dinheiro daqui pra três ou quatro dias guando sair pagamento
de salário na mina. Enquanto espera o pagamento o passatempo
é matar pinga no bar.


- Tá bom seu Juca, mas qual era a denúncia?


- Que o senhor ia fazer.


- Ah! Pensei que tu já tinhas esquecido, porque é um assunto
esquisito.


- Não esqueci, qualquer denúncia é importante para a matéria.


- Tá maluco? Não denuncio. É uma história que eu sei.


- Pois bem...


- É voz corrente que existe uma galeria no Morro do Cruzeiro dá
muito ouro, esquece a galena, esquece chumbo... Os
operários são escolhidos a dedo e são revistados ao chegar e
ao sair. Esse minério não sai por caminhão, é levado por avião
a um lugar que ninguém sabe onde é. Outros dizem que passa
por Adrianópolis, no Paraná, onde a Boquira tem minas, e depois
segue para o Uruguai.


- O prefeito de hoje é o coletor de ontem. Ganhou a prefeitura
porque durante muito tempo tirou as guias de nota fiscal
dos caminhões com teor errado de minério. Sabia muito bem o
que ia no caminhão sem fiscalização. No avião nunca deram a
ousadia dele encostar.


Era uma denúncia a ser investigada e quase impossível de
comprovar. Como arrancar informação daqueles homens que
trabalham na dita galeria se muitas vezes nem as famílias deles
sabem o trabalho que fazem, o tipo de minério que extraem? Ia
ser levada para a chefia em Salvador.


O que todo mundo fala na cidade é que o coletor de Macaúbas
era o primeiro a fazer o rolo na sonegação do imposto
e contrabando de prata. E pode perguntar a Zeca de Rufino se
falo a verdade ou não. Ele foi auxiliar de laboratório por mais
de cinco anos e trabalhou nisso, anotando a prata e o ouro encontrados
no minério. Essa galena aí tem 4,8% de prata e 1,7%
de ouro, é daí pra cima, tem lugar que tem mais que outros. O
irmão de Rufino é outro que está doido para falar, ele perdeu
roubada a eleição para o coletor João de Oliveira, corrupção
eleitoral em lances marcados por ações violentas.


Sobre contrabando de ouro e prata um diretor da Penarroya
disse na CPI em Brasília que é um expediente impraticável devido
à fiscalização das autoridades.


O antigo coletor, agora prefeito, não confirma a tal fiscalização.
O concentrado de minério extraído é pesado e descarregado
nos silos. E arrecadação é muito boa, embora aqui não
tenha fiscalização federal, neste ano de 1974 vamos arrecadar
dois bilhões e trezentos milhões de cruzeiros, metade do imposto
único sobre minerais e metade do fundo de participação.
Estamos em julho e já arrecadamos quatrocentos e sessenta e
cinco milhões, pagos pela mina ao Baneb.


- Estou garantindo que os homens contrabandeiam ouro,
prata e outros minerais, arvora-se Juca brindando com o terceiro
copo de cachaça e já parecendo despreocupado com o
segredo e com a própria segurança.


Juca Benzeno falou a verdade. A sonegação fiscal foi denunciada
em Brasília. Além de não ter qualquer fiscalização na produção
e no transporte, a Boquira emitia apenas uma nota fiscal
por mês para todo o concentrado que saía diariamente da mina
nos caminhões. Terminou sendo descoberta por dois fiscais da
receita federal e foi condenada em 1973. O contrabando é que
ficou difícil de comprovação pelos repórteres e pelos deputados
em Brasília. Por um motivo muito singelo: não havia, em absoluto,
a tal fiscalização das autoridades alegada pela empresa. A
exportação nacional de prata industrial, que tinha na Penarroya
a sua maior produtora, era a declarada pela própria Penarroya.
E assim, quando os relatórios sociais do grupo a que pertencia
a Boquira registravam em Paris um volume várias vezes maior
que a prata declarada no Brasil, de pronto uma outra explicação
também singela: pelo fato de o grupo trabalhar também com
chumbo importado, a diferença era sempre extraída do minério
importado... Nunca houve explicação é para a quantidade de
ouro que aparecia nos balanços em Paris. Não era muito, mas
era ouro. No Brasil, o boletim número oito do Departamento
Nacional de Produção Mineral, publicado em 1973, trazia uma
produção declarada pela empresa de menos de cem quilos de
ouro. Ora a reserva total de Boquira era de quatro milhões de
toneladas de minério de chumbo e desse total quase três milhões
já tinham sido extraídas em 1975. Por menor que seja o
teor de ouro, é só fazer a conta, diria Juca Benzeno.

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