Domingo, 14 de Janeiro de 2018 - 10:09

ALAGOINHAS

por Carlos Navarro Filho

ALAGOINHAS
Foto: arquivo pessoal
Cheguei à noite. Entre oito e nove horas, e desembarquei do pirulito pelas mãos da minha mãe. O trem havia saído no final da tarde da estação de Calçada e gastava mais ou menos quatro horas na viagem, parando em todas as estações e pontos existentes na linha. Os dois últimos pontos, que mereceram um aviso de alívio de Mariazinha “agora estamos perto”, são Pau Lavrado e Sítio Novo, distritos de Catu.
Era tudo novo. Aos dez anos, morando em Pojuca, fiquei sem saber o que fazer porque terminei o primário e só podia fazer o exame de admissão ao ginásio com onze anos. As beatas do lugar, lideradas pela “vó” Elisa, convenceram Mariazinha a deixar o então coroinha ir estudar no Convento da Piedade, em Salvador, além de gratuito, eu estaria destinado a ser o orgulho da família se me tornasse frade capuchinho. Era uma época em que, para ter prestígio, uma família precisaria ter um padre, um médico, ou um doutor advogado. Mariazinha, sertaneja rebelde e pragmática, não se importava com esses modismos sociais, mas acedeu, a contragosto. Era melhor o filho no convento do que perder o ano inteiro vagueando na molecagem. As beatas, orgulhosas do feito, acreditaram que tinham encaminhado mais um sacerdote à santa madre igreja. No fim do ano, comecinho de dezembro, Mariazinha vai buscar o filho para gozar as primeiras férias. Primeiras e últimas. O menino estava tão pálido dentro do hábito marrom, um pálido doentio, que a assustou. A mãe, que necessitava do primogênito para chefiar a família depois da morte do marido, jogou uma praga nos frades e levou-o para não voltar. Nem o enxoval que havia comprado com sacrifícios levou por receio de os religiosos desconfiarem da perda do futuro capuchinho. E assim cheguei a Alagoinhas, para onde a família tinha mudado na ausência do mais velho dos sete filhos.
Era tudo novo. Mesmo na penumbra de algumas ruas mal iluminadas dava para ver uma cidade grande, bem diferente da outra. O pirulito parou primeiro na Estação de São Francisco, a maior e mais importante da ferrovia até o rio, aonde a ferrovia chegaria, em Juazeiro, e depois seguiu até a estação que existia na praça da prefeitura, centro da cidade. Comparando com a beleza da primeira, construída pelos ingleses a mando do segundo imperador, esta poderia ser considerada um puxadinho.
Dalí saímos caminhando na direção da Rua Conselheiro Couto e passamos olímpicos pela Boa Vista, que já apresentava razoável movimento de putas nas portas das casas conversando à espera dos clientes e no bar de seu Joãozinho. Mariazinha, que nunca teve besteira com ela, não iria fazer um volta danada pela Conselheiro Moura, se podia encurtar o caminho. E assim, impávida, subiu a rua pela calçada do lado direito tendo por companhia um fradinho de hábito marrom, capuz e cordão branco à cintura. A putada não se conteve e começou a assoviar, “deixa o padrinho com a gente”, “ele pode rezar uma missa aqui?”. Minha mãe não se abalou, sorriu um pouco sem graça e sentenciou “são umas desassuntadas”.
A rua do puteiro da cidade era pequena. O puteiro em si menor ainda, não passava de oito a dez casas ao rés do chão tomando aquele lado do quarteirão. O nome Boa Vista não guarda relação com a posição topográfica, porque situava-se na parte baixa da ladeira sem panorama a ser apreciado. Certamente deve-se à visão das mulheres a alegrar os tropeiros e comerciantes de fumo e de gado leiteiro que entravam a cavalo em Alagoinhas pelo lado sul, por caminhos margeando a linha o trem, vindos de Igreja Nova, Catu, Pojuca, Pedrão, Irará e outros pontos do Recôncavo. À época a cidade ainda era importante polo econômico e político regional com mais de trinta municípios em sua área de influência direta. A calçada em frente às mulheres, por onde subimos, guarnecia um longo muro ocre de pintura gasta pelo tempo e a chuva. Ao final do muro abria-se um largo, na esquina da Rua José Olímpio. Jamais passei pela calçada da Boa Vista, foi-me ensinado que era proibido e perigoso para meninos. Quando comecei a entender do mister das moças da Boa Vista ela não mais existia, a cidade crescera e as moças mudaram-se para o Alecrim, lá para os lados de Santa Terezinha. Lá eu já podia chegar aos 15 anos.
As casas da esquina da José Olímpio eram, de um lado, de um militar reformado francês, o capitão Boullanger. Acho que era militar por causa da patente acrescentada ao nome, além disso o velho, vermelho, magro e muito alto, não tinha cara de padeiro. Do outro lado, mais um ancião, o professor Piedade. Esse era branco, baixinho, cabelos e bigode brancos, tagarela. Parede meia com a casa do professor Piedade era minha nova casa. O imóvel fora um dia uma mansão de muitos quartos, dividida posteriormente em duas moradias. O jardim era só do nosso lado, indicando que ao abrir-se a José Olímpio comeram uma parte do terreno da mansão, que na nossa banda lembrava uma casa de fazenda. O amplo quintal, contudo, era comum. E a meninada lá de casa vivia em um paraíso de pés de araçá, sapoti, laranja, manga e uma frondosa jaqueira. Lembro que o professor Piedade era conhecido pela mão fechada e lembro também de uma história ocorrida pouco antes da minha chegada. Entrou um ladrão no quintal. Não há registro se o invasor estava interessado apenas nas frutas ou se tinha intenção de roubar a casa. Mariazinha acordou com o barulho e o flagrou no pátio dos fundos. Surpreendido pelos gritos de Mariazinha, o homem correu para o lado oposto ao que daria para pular fácil o muro e cair na José Olímpio. Terminou meio que encurralado, quando, acordado pelos gritos, acudiu o professor Piedade, espingarda em punho.
- Onde ele está dona Maria?
- Ali professor, olha o vulto ali, perto da jaqueira.
- Não estou vendo...
- Como não, atira...
- No escuro vou perder o tiro.
- Então me dá que eu atiro.
- Não, deixa eu ver melhor.
E nessa discussão o ladrão foi esgueirando-se, de mansinho, até chegar ao muro e pular para a rua, desembestando ladeira abaixo na direção da Boa Vista.
- Mas professor, tivemos o ladrão na mira, reclamou Mariazinha.
- Dona Maria eu não ia gastar dois contos, que é o que me custa cada cartucho, para atirar em uma sombra. Era tiro perdido, um prejuízo.
Logo depois da chegada, fui levado ao Ginásio de Alagoinhas e apresentado ao professor Artur, o diretor. As inscrições do exame de admissão já estavam encerradas e as provas seriam feitas antes do Natal. Mas ele condoeu-se da história de Mariazinha e me inscreveu, meio descrente na aprovação de quem não se preparou, a concorrência era forte. Passei e comecei a frequentar aulas. Bem, frequentar aulas é força de expressão. Aprendi com os mais velhos a jogar pauzinho, jogar pio, jogar gude, roubar coco em Tio Jeremias, cujo sítio era vizinho ao hospital, laranjas nas cercanias do ginásio e jacas em umas fazendas perto da Fonte dos Padres. As frutas eram ótimas, mas o melhor da aventura era a adrenalina nas carreiras desabaladas em fuga do flagrante e dos tiros de espingarda carregada de sal, do velho Jeremias. Depois a corriola se reunia para beber água em alguma fonte e comentar a estratégia de fuga, que de vez em quando era alterada na empreitada seguinte. Em pelo menos uma vez um ladrão de coco foi alvejado por Jeremias. Morava na Lagoa Cavada, perto da casa de Júlio do Carmo. Por ser mais velho e conhecedor do teatro de operações facilitou e demorou a correr. Chegou em casa com uma ferida no alto posterior da coxa, junto à bunda, que, dizem, demorou a sarar.
Dispensável dizer que perdi o ano por falta. E desta vez foi Mariazinha que resolveu me mandar de volta ao seminário, para não perder o filho para a malandragem juvenil. Os seminaristas Cândido, Tavares e Justino, todos do Seminário Maior, providenciaram conseguiram a bolsa de estudos e viabilizaram a minha ida, aos 12 anos. No Seminário Central da Bahia, na Avenida Cardeal da Silva, fui apresentado logo no primeiro semestre ao latim, grego e francês, uma novidade. A vida de seminarista foi boa, em especial nas férias quando o padrinho, desta vez de batina preta, fazia sucesso com as meninas. Que o digam Irmã Rosa e a Madre Santíssimo, do colégio das freiras, onde quase diariamente ajudava missas. Em algumas escolhidas passava a patena no queixo, no momento da comunhão. E não é que Irmã Rosa, que a tudo observava, resolveu investigar a causa de alunas receberem a hóstia com um ar de riso? Quase fui expulso do seminário.
Pouco mais de dois anos depois saí do seminário dos padres seculares. Saí não, fui saído. E aos 14 anos voltei à Alagoinhas. Aprendi a jogar sinuca e fui estudar na CNEG, no bairro 15 de Novembro. Aí, iniciei-me na política estudantil e depois na política eleitoral. Não demorou muito, anos 1960, era secretário do prefeito Murilo Cavalcanti, eleito em  pelo PSD, e, ao final da década, vereador pelo MDB. Mas isso é outra história...
 

Histórico de Conteúdo