Sábado, 06 de Janeiro de 2018 - 05:11

Antônio, Chico, o Porto do Moreira

por Florisvaldo Mattos e Carlos Navarro Filho

Antônio, Chico, o Porto do Moreira
Foto: Andrea Farias / Correio

 Adeus ao amigo Antonio Moreira
 
 
Estou hoje, pela manhã, em casa, ainda me recuperando das tropelias hedonistas de final de ano, quando recebo pela voz embargada do jornalista Carlos Navarro Filho (Navarrinho) a triste notícia de que misteriosamente se fora o querido amigo de todos nós e de muitos mais Antônio Moreira, que desde decênios divide com o irmão Francisco (Chico) Moreira a direção e sustentação do paradigmático Restaurante Porto do Moreira, situado no Largo do Mucambinho, uma das joias, senão a principal, do universo sensorial da Cidade do Salvador. Memorável figura, admirável exemplo de fraternidade e cordialidade, que conciliava na convivência diária com clientes, muitos frequentadores da casa por decênios, gestos de amabilidade e respeito com irreverência bonachã, como bem o caracterizou hoje um deles, o Dr. Fernando Santana, presidente do Clube inglês, sempre alegre, sorridente e afetuoso, em todos os momentos e dias em que lá se postava para cumprir a faina que o destinho lhe reservara, para torná-lo um ser humano amado por todos que dele se aproximavam. Desde que o conheci, lá se vão quase sessenta anos, travamos uma relação de consideração e amizade que durou até que os Fados o permitissem. Vai-se Moreira, de repente, deixando em todos os que o conheceram um sentimento de perda incalculável. Que a eternidade o receba coberto com consagrador manto de luz e paz, tornando a sua memória um patrimônio de todos.
Como o conheci, lá mesmo no célebre restaurante, ainda um garçom infanto-juvenil servindo com o irmão Américo à freguesia sob ordens às vezes severas do pai, o saudoso português José Moreira, guardo dele na memória a mesma expressão sociocultural do restaurante, palco de episódios e histórias memoráveis, algumas até de contorno humorístico, que, ao pronunciar recentemente uma conferência sobre trajetos boêmios da cidade, nos anos 1950/1960, não deixei de dedicar uma parte ao significado cultural de seu nobre estabelecimento. 
Assim é que, entre muitas histórias que reuni na narrativa de tão rico e inesquecível período da vida de Salvador, sinto-me agora impelido a reproduzir dela a parte que segue abaixo.

"Desse hoje para muitos um urbano paraíso perdido, repositório de sensações e conquistas inauditas, todos teriam histórias prazerosas a contar, mas, de todos esses lugares, talvez seja o Porto do Moreira o que, pela qualificação e variedade da clientela, mais guarde a memória de casos dignos de registro. Fundado em 1938 pelo português José Moreira (o Sêo Moreira), e facultando a seus clientes um assíduo quanto vasto cardápio de pratos caseiros de inspiração lusa e baiana, tornou-se desde cedo uma casa de pasto cujas mesas reuniam diariamente a nata da inteligência e da burocracia, representada por escritores, poetas, artistas plásticos, professores, jornalistas, profissionais liberais, membros da magistratura, além de políticos, funcionários públicos e comerciários, que lhe davam cor local, como até hoje ocorre neste ameno quase octogenário recanto. Além da cordialidade e simpatia do dono, virtudes saudavelmente transferidas aos filhos, Antônio e Francisco, que, na condição de herdeiros, ainda hoje mantêm o famoso lugar como um ícone de prazeres gustativos na geografia da cidade. 
Muito de histórias passadas lá permanece no imaginário dos remanescentes de uma fiel clientela. Evoquemos uma delas quase ao acaso, narrada por Carlos Coqueijo Costa, conceituado dublê de jurista do Trabalho, cronista, compositor musical e animador cultural. Com o restaurante funcionando já no atual endereço, no Largo do Mocambinho, mais conhecido como Largo das Flores, na Rua Carlos Gomes, entre os garçons do serviço, havia um mulato magro, calmo, atencioso e simpático, apelidado de Popó. Atendido por ele, certo dia, na hora do almoço, com preguiça de ler o cardápio escrito à mão, um freguês lhe pergunta: “Popó, que temos de bom hoje, aqui na casa, para comer?”. Solícito, lhe responde Popó, suavemente: “Tem galinha de molho pardo, galinha de ensopado, fígado acebolado, ensopado de carneiro, porco assado, salada de bacalhau, filé a cavalo, fritada de siri, moqueca de miolo e moqueca de carne”. Fez uma pequena pausa e concluiu: “E, de sobremesa, goiabada com queijo e banana pessoalmente”. Coqueijo contou este curioso diálogo numa das crônicas que então escrevia, às segundas-feiras, no jornal “A Tarde”, cujo recorte ainda hoje, emoldurado, está afixado na parede do restaurante, à vista dos fregueses."

 
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Chico, o pensador
do Porto do Moreira
 
 
 
Como de costume, Chico o Pensador estava sentado à última
mesa do lado esquerdo do restaurante Porto do Moreira, junto ao
freezer de cervejas. Sempre só, e três cadeiras vazias, o que, para
os irmãos Francisco e Antônio, herdeiros da casa quase centenária,
no Largo do Mocambinho, significava prejuízo, porque não
podiam ser utilizadas por mais ninguém.
– Cada maluco que tenho aqui –, vivia balbuciando Antônio
Moreirão, com o devido cuidado de não ser ouvido pelo cliente.
Os demais fregueses e amigos Moreirão esculhambava sem a
menor cerimônia, em voz alta, mas não se arriscava a desfeitear
àquele que nem sabia o nome – a alcunha fora uma homenagem
da turma a François-Auguste-René Rodin e sua lendária escultura.
O misterioso Chico o Pensador chegava sisudo, pedia o conhaque
e a cerveja de sempre. Sorvia o destilado de um só gole,
postava-se de cotovelos sobre a mesa, servindo de base à mão no
queixo, olhar fixo na porta de entrada, enquanto Seu Ailton, o único garçom
que o atendia, enchia o copo de cerveja, copo-americano,
nada de taças, tulipas, copos altos.
O Pensador jamais se apresentou, ninguém sabia sua graça,
não permitia aproximação. Ninguém sabia o que ele sabia, pensava
ou fazia. Chegava ao anoitecer, vindo de um ponto qualquer,
talvez uma pensão, um quarto-e-sala do Largo Dois de Julho,
mesma área onde morava Antônio, no prédio sobre a churrascaria
Líder, famoso ponto de boemia. Era a única informação.
Dizia a lenda que um dia fora matador em Itabela, no extremo
sul da Bahia, e seria original do Espírito Santo ou Minas Gerais.
Por conta disso, todos tinham medo daquele baixinho aloirado,
meio grisalho, meio gordinho e de cara enfezada.
Dia após dia, excetuando-se sábados e domingos, entrava com
suas botinas marrons de pele de cabra e solado de couro, sem dar
boa tarde, e saía por volta das nove, sem dar boa noite. Só falou
com o garçom no primeiro dia, quatro meses passados, quando
apareceu pela primeira vez.
Ailton já sabia a preferência do freguês e nem bem ele sentava
a bebida já estava à mão. Uma particularidade: dava gorjeta, ao
contrário da maioria. Normalmente, a conta ficava um pouquinho
mais de 20 cruzados novos, e ele deixava 25 e ia embora.
O garçom não contestava as reclamações de Antônio e não
deixava ninguém falar mal do freguês:
– É boa gente. É esquisito, mas não bole com senhor ninguém
–, dizia sempre que instado a falar sobre o personagem que atendia.
Um dia, o chefe da sucursal do Estadão chegou mais cedo
para a confraria, engoliu um velho oito, o uísque nacional de rico
na época, pediu outro e resolveu enfrentar a fera. No estreito e
calorento salão vazio, sentou-se à mesa mais próxima e disparou:
– O senhor é famoso aqui porque não dá ousadia a ninguém.
– Sim.
– É que as pessoas falam que o senhor é mineiro, já foi rico,
já matou gente...
– Não –, interrompeu bruscamente.
– Não repare não, sou jornalista, vejo-o sempre sozinho aqui,
pensei que gostaria de conversar...
Ante o silêncio e o olhar fulminante do interlocutor, o repórter
levantou-se rápido e voltou para a mesa do encontro semanal
com os colegas, na outra extremidade do salão, acompanhado por
um Antônio sarcástico, sussurrante:
– Tá vendo aí, porra, vai mexer com quem tá quieto.
– Moreirão, sai de bolo –, respondeu, constrangido e amedrontado.
Ele iniciou uma conversa tensa, silenciosa, com um copo de
uísque e gelo, sobre os doidos de rua e as personalidades complicadas
que conheceu e sobre as quais escreveu reportagens, quase sempre em histórias de maldade.
Teve um arrepio, te desconjuro! Ele se lembrou de mulheres
que mataram os bebês pouco tempo depois do parto, carimbadas
de monstros pelos jornais e defendidas pelo respeitado professor
de antropologia Estácio de Lima:
– O professor dizia que em crimes puerperais era preciso estudar
a acusada para estabelecer em que situação e condições eles
foram perpetrados em meio à confusão hormonal que a acomete.
Discutiu também a velha e inconsciente luta entre o homem e
o automóvel pelo espaço na urbe, o que leva, até hoje, o cidadão a
ser atropelado pela simples razão de atravessar a rua a ignorar a
velocidade-peso de um carro:
– A rua é dele, e o carro é o invasor nessa luta desigual.
O repórter conversa consigo mesmo e não tira o olho da porta
da rua. E o pessoal não aparece. Chegou ao restaurante duas
horas antes do habitual, mas o relógio da parede na entrada da
cozinha insiste em ficar parado. Todo esse tempo e passaram-se
apenas 15 minutos.
Não ousa virar a cabeça na direção de Chico o Pensador e
também não dá atenção às provocações de Antônio, que se compraz
em dar ordem às cozinheiras enquanto papeia com os clientes que estão chegando.
Sentado àquela mesa especial com mais oito lugares vazios
destinados à confraria, ele pensa e repensa na vida recente. Não
tem mais preocupação com o ofício de repórter em tempo de
ditadura já sem força, esvaindo-se na abertura lenta e gradual de
Geisel. Pensa nas inúmeras denúncias que fez pessoalmente ou
pautou contra figuras civis da ditadura:
– Contra militares, ninguém jamais se arriscou, ou melhor, nenhum
jornal da mídia convencional teve colhão de publicar. Só os
alternativos.
Olha mais uma vez o relógio, ainda são seis e meia da noite, e o
povo só chega às oito. Pensa em São Paulo, em editores incompetentes
na redação do Estadão que não enxergam um palmo além das fronteiras do estado:
– A cidade de São Paulo, para eles, é o umbigo do Brasil. Imagine
que mandam para o Nordeste e o Norte a mesma pauta geral
sobre produção e comercialização de trigo. Porra, será que eles
não sabem que aqui não se produz trigo?
Pensa em casa, na mulher com quem vive, nas duas filhas pequenas
e nas mulheres dos colegas de redação:
– São heroínas, trabalham e depois correm para os afazeres
domésticos, enquanto os maridos enfiam a cara na cachaça.
– Mas é assim mesmo, perto de toda redação é preciso ter
um bar. Caso contrário, o sujeito chegaria em casa para despejar
a insuportável tensão do dia, da luta contra o relógio no envio de
matéria dentro do horário programado, sob pena de levar bronca
do editor, que também é cobrado pela oficina naquela fábrica de
salsichas.
Pensa na fonte que não sabe do horário industrial no fechamento
do jornal e atrasa mais uma vez a entrevista. Pensa nos que
acham o jornalismo uma subprofissão e que o jornalista pode ser
ameaçado impunemente, ou até mesmo comprado com favores
e dinheiro.
Lembra a vez que um grande banqueiro ofereceu avião para
viagem ao Além São Francisco, com o intuito de mostrar que a
denúncia de grilagem de terra contra ele era infundada:
– Difícil seria convencer 52 famílias habitantes do lugar há
mais de século de que não estavam sendo vítimas de ato criminoso,
com tratores derrubando suas casas de taipa e pistoleiros
ameaçando matar quem não corresse para o mato.
– Difícil explicar a ação do cartório extrajudicial mais próximo
acobertando tudo a soldo do grileiro. Além do avião, insinuações
de favores e facilidades no banco. Deu-se mal, porque a oferta,
além de recusada, foi assunto de matéria no Estadão do dia seguinte.
– Jornalista, aliás, tem uma característica muito própria. Acha-
-se dono de muito poder por causa do acesso fácil a grandes
empresários, autoridades civis e eclesiásticas, e até mesmo a alguns
militares. Ameaça ao telefone as fontes que não querem falar,
ou não lhe dão atenção. E depois do dia de trabalho, volta para casa
igual a qualquer trabalhador, dificuldades iguais, escondidas sob o ar
arrogante, de fechar o orçamento doméstico.
– Para conseguir a façanha de pagar as contas e viver com alguma
dignidade, o jornalista precisa de dois, às vezes, até de três
empregos. Não tem jeito, irmão, tem de morder uma cachaça no
botequim mais próximo, rebatida com uma cerveja gelada, enquanto
refaz os planos de pagamento do fim do mês e sai deixando a conta no prego.
Agora é que o relógio bateu sete horas.
– Moreirão, mais um aqui.
Daqui a pouco, o pessoal chega trazendo o uísque. Há um
acordo: o uísque é da turma, a comida e outras bebidas são da
casa.
Chico o Pensador continua lá, impassível, na terceira cerveja.
Mão no queixo, olho na porta. O outro pensador da noite põe
duas pedras de gelo no copo curto com uísque e ouve mais uma
imprecação de Antônio Moreira:
– Hoje não vai ser como na semana passada. Dez da noite eu
fecho, conforme o combinado. Não adianta Seu Paolo e Seu Victor
virem com conversa mole. Eles chegam tarde porque querem
e vocês inventaram hoje esse negócio de chegar oito horas, é uma
hora a menos, o acerto é de todo mundo chegar às sete. Mudaram
porque quiseram.
Acostumado às queixas desde que voltou a se reunir quatro
anos depois do antigo endereço, o outro não se abalou:
– Tá bom, tá bom, Moreirão, diz à Dona Isaura Loura que
hoje vou querer a moqueca de miolo do jeito que ela sempre faz
para mim.
– A cozinheira é minha, não é sua não. Não tem que recomendar
nada. Na hora, faça o pedido que sai.
Os primeiros a chegar, pontualmente às sete e 45, foram Jadson
e Biaggio, este um novo integrante do grupo recém-contratado
pelo Estadão. Mais um calabrês. Depois, Teixeirinha, Formigli,
Jorginho e Bel com o uísque debaixo do braço, comprado por
um confrade a cada semana pelo democrático sistema do rodízio.
Já passava das oito e 30, quando entraram os dois retardatários,
alvos das reclamações do dono da casa.
Curioso, o chefe olha cada um, em meio à conversa. Cabelos
grisalhados, barriga ganhando realce, a mesa já não faz o mesmo
barulho de antes, já não é preciso voltar a discutir determinados
assuntos.
O sertanejo Jorginho, que foi alertado para não constar em
ata a derrota do chefe para o pistoleiro, é o mais italiano do grupo
na gesticulação. Paolo está ultimando o livro que vai publicar
sobre a censura à imprensa. Ainda abalado com Chico o Pensador,
ele não entra no clima. Em vez disso, assola-o mais uma vez
o drama da autocensura.
Era novo o fato de não haver mais controle formal da imprensa,
censura, tortura e violência desenfreada dos militares. Lutaram
contra isso a vida inteira, mas de repente não tinham mais sentido
os planos mirabolantes de resistência e enfrentamento à ditadura.
No dia em que Geisel comunicou ao Estadão que estava retirando
seus censores da casa, o jornal chamou a atenção de editores
e chefes de sucursais para o cuidado que se deveria ter com o
texto dali em diante. Apreensão geral!
Por um bom tempo as pessoas tatearam amedrontadas no escuro.
Era uma situação nova, desconhecida. O passar do tempo,
contudo, desanuviou o trabalho, mostrou o caminho. Devia-se
fazer o que sempre foi feito: apurar, checar, gravar tudo, não se
restringir à palavra oficial, ouvir os lados envolvidos.
Ali, olhando os amigos de tantos anos, ele percebeu as espirais
do remoinho encurtando-se. Filosofou com o copo de uísque e
pela primeira vez pensou no futuro, o que seria da vida daqueles
quarentões que se reuniam semanalmente para se embriagar. Não
deu asas ao pensamento. Entrou na conversa porque Teixeirinha
já fazia observações ferinas referentes ao teor alcoólico no sangue
do primeiro a chegar naquela noite.
Noite em que Antônio Moreira levou um a zero. Faltavam
15 minutos para as 10, e para gáudio da confraria, Chico o Pensador
pediu o segundo conhaque e a quinta cerveja.
– Agora, quero ver ter moral para nos mandar embora –, sussurrou
Victor, enquanto o dono da casa, de cara amarrada e sem dizer palavra,
trouxe mais gelo para o conhaque.
Viva, Chico o Pensador!

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