Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

'Não dá para ter grandes shows, mas precisamos de estratégias', defende Pola Ribeiro, diretor do MAM
Foto: Reprodução

Autor de mais de 40 filmes, Pola Ribeiro assumiu, no último dia 15 de janeiro, um novo desafio em sua carreira: a gestão do Museu de Arte da Bahia (MAM-BA), após o espaço ficar por mais de um ano sem direção (veja aqui).

 

Com experiências de gestão cultural como a de diretor do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), entre 2007 e 2014, e de secretário de Audiovisual do extinto Ministério da Cultura (MinC), de 2015 a 2016, o cineasta diz querer propor para o MAM a ideia de diálogo com o entorno e com as várias linguagens possíveis para o local.

 

Diálogo proposto desde os primórdios do museu, quando a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi o idealizou e dispôs, na década de 1960, um acervo que privilegiasse a arte moderna - a princípio no foyer do Teatro Castro Alves (TCA).
 

Em conversa com o Bahia Notícias, feita por telefone, Pola não se furtou a falar sobre  as polêmicas que envolvem o MAM-BA. Desde a realização dos shows para um grande público (leia aqui e aqui), passando pelas críticas à construção de um bem acabado atracadouro que descaracterizaria o projeto arquitetônico do restauro que deu vida ao velho Solar do Unhão (relembre aqui), ele comentou sobre todas.

 

No dia do bate-papo, uma visita técnica estava marcada para que pudesse ter o primeiro contato com o MAM, que encontra-se fechado por conta dos cuidados sanitários decorrentes da pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

 

Para ele, a articulação junto às forças políticas, instituições públicas do estado e a proposição de um espaço que converse com Salvador são as potencialidades a serem exploradas nos próximos anos do equipamento cultural. 

 

"O MAM precisa se articular para cumprir o seu papel, porque ele hoje está um pouco desidratado, digamos assim. Ele precisa de recursos e estar amparado, precisa dialogar com as pessoas que têm envolvimento com essa coisa, com os vizinhos, com os outros museus e com o IPAC e as pessoas que foram eleitas e podem conseguir recursos", discorreu Pola Ribeiro. 

 


Foto: Divulgação


Você está assumindo o MAM-BA agora, após um longo período sem ninguém à frente do museu, qual a situação do local hoje? Você já tem esse diagnóstico?

Olha, existem dois fatos importantes nessa história. Primeiro que ele é um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes da Bahia, um dos mais antigos do estado, com uma força histórica imensa e com uma intervenção posterior de restauro fantástica feito por Lina Bo Bardi. O MAM é aquele lugar que parado já está falando. Ano passado ela [Lina] fez 100 anos e vieram pessoas de vários os lugares do mundo fazer matéria sobre as intervenções artísticas que ela fez na Bahia. É um patrimônio que precisa de muito cuidado e é extenso. A outra coisa é que ele é um museu com mais demanda, é a plataforma nossa que mais tem capacidade de falar para fora, ou seja, de ser um local para os artistas baianos exporem, mas também ser de fora para dentro, que a gente recebe artistas importantes do Brasil e do mundo. Essa outra parte teve uma interrupção e tem um impacto no diálogo que o museu vai travar com as outras instituições e com os artistas. Isso precisa ser cuidado. Eu estou aterrissando ainda. A parte arquitetônica está cuidada, precisando de algumas coisas pequenas que eu vou ver agora - ele passou por uma reforma recente e ainda está em obra a parte do restaurante e do atracadouro, que devem ficar prontas em junho. A princípio o que o museu precisa é de cuidado, carinho e da definição de um projeto. 

 

Você pega a gestão do MAM com algumas polêmicas em curso. Quando a ex-diretora entregou o cargo, houve uma série de críticas relacionadas ao fato do local receber grandes shows e mais recentemente a obra da construção do atracadouro foi problematizada, inclusive na imprensa nacional, sob a acusação de que esta seria uma intervenção que descaracteriza o próprio projeto de Lina Bo Bardi.

Quanto a ocupação do espaço, a gente vai ter que avaliar isso com bastante carinho. Ou seja, ao mesmo tempo que o MAM precisa atrair pessoas e ser um referência para a ação de ponta das artes da Bahia, ele também precisa buscar espaço de atrair gente para popularizar. As pessoas passam pela Contorno e não conhecem o MAM porque há uma certa dificuldade de chegar. [Queremos] que a população de Salvador entre naquele espaço. A gente tem que fazer parte de alguns diálogos. Vejo aquele museu como um espaço de diálogo. De um lado você tem a comunidade da Gamboa e do outro a Bahia Marina. A gente precisa conversar com esses dois espaços. Estamos na beira do mar, de alguma forma temos que fazer Salvador dialogar com o Recôncavo, que é importante para a cultura desta cidade. [Ele está] entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta... é um lugar de diálogo, é isso que imagino. 

Não dá para ter shows de grande porte, mas a gente precisa de estratégias para aquele espaço, para vivenciar aquele espaço. A coisa do atracadouro eu também vou ver com muito carinho, vou pegar o projeto original, mas é uma obra que não é nossa. Ele é um museu tombado pelo Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], essa obra é federal, com recursos federais e aprovada pelo órgão, que é quem autoriza mudanças no museu. A gente não tem muita gestão quanto a isso, mas precisamos avaliar e tomar uma posição. O que eu vejo lá é uma obra bacana, que está sendo feita com muito cuidado. O atracadouro vai ser um equipamento importante para a Baía de Todos-os-Santos. 

 

Você não teme que isso seja uma gourmetização do espaço? Que ele seja destinado para pessoas de maior poder aquisitivo?

Não pelo atracadouro. Quanto ao restaurante vai ser feita uma licitação e a gente vai dizer algumas normas do que pode ser feito. Tenho algumas ideias, acho que o restaurante deveria estar ligado a uma coisa que dialogue com a arte e ele deve estar em função mais do museu do que o museu do restaurante. A coisa principal ali é o museu. Já tivemos épocas que o MAM estava fechado e o restaurante [café existente] funcionando, com a segurança, que é pública, sendo paga pelo estado. Vamos pensar em algumas questões. Para isso preciso de oxigênio, de respirar um pouco, de entender e dialogar com as partes. 

O MAM precisa se articular para cumprir o seu papel, porque ele hoje está um pouco desidratado, digamos assim. Ele precisa de recursos e estar amparado, precisa dialogar com as pessoas que têm envolvimento com essa coisa, com os vizinhos, com os outros museus e com o IPAC e as pessoas que foram eleitas e podem conseguir recursos. Eu preciso muito também de um curador que nos ajude a fazer esse diálogo com outras instituições. Temos agora os 100 anos da Semana de Arte Moderna de 1922 e temos que estar antenados a isso.

 


Foto: Reprodução / Pelourinho Noite e Dia

 

Me parece muito sintomático que agora, junto com a chegada de um acervo de Glauber Rocha ao MAM-BA (leia aqui), um cineasta tenha sido nomeado para o cargo de diretor. Há alguma relação?

Não tem relação, não. Para você ter uma ideia, isso não tava nem ventilado quando houve o convite para que eu assumisse o cargo. É uma coisa que eu já tive contato quando se pensou essa vinda do "Tempo Glauber" para cá na época que eu era gestor do Irdeb, mas não tem nenhuma relação direta. Preciso estudar, ver o que está vindo para que a gente possa disponibilizar para escolas, estudantes e para as pessoas. Precisamos também ver o local onde vai ficar.


O MAM tem uma sala de exibição, um cineasta está dirigindo o equipamento e há um acervo de Glauber sendo disponibilizado agora ... Indiscutivalmente há algum espaço do cinema dentro do museu, não? 

Da mesma maneira que o cinema clássico vai diminuindo, o audiovisual vai permeando todas as coisas, não é? Quando entrei no Irdeb as pessoas estranhavam - meus próprios amigos cineastas - quando dizia que não sou artista. Sou comunicador, minha capacidade é de gestor, de articular pessoas, instituições, ideias, de ouvir, fazê-las crescerem. É isso que quero aportar ao MAM. Lá tem a sala de cinema, tem esse acervo e até uma área para que aconteça exibição pública ao ar livre, mas não vai ter um espaço maior por conta disso. Agora assim, eu penso que o MAM precisa de comunicação, trabalhar nas redes sociais, invstir em podcast para chegar às pessoas.

Histórico de Conteúdo