Sexta, 01 de Novembro de 2019 - 11:10

Thiago Arancam encerra em Salvador turnê em que buscou popularizar o canto erudito

por Lara Teixeira

Thiago Arancam encerra em Salvador turnê em que buscou popularizar o canto erudito
Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

O tenor brasileiro Thiago Arancam retorna a Salvador neste domingo (3) para encerrar sua turnê "Bela Primavera". A apresentação acontece às 19h, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. O artista contou em entrevista ao Bahia Notícias que está ansioso para se apresentar pela primeira vez no local e revelou como conheceu o espaço. 

 

"A primeira vez que eu soube da Concha Acústica, eu estava fazendo a estreia do meu show no Teatro Castro Alves, e tinha Maria Bethânia tocando na Concha. Aí do meu camarim, da janela, eu ouvi aquilo, aquela massa, todo mundo cantando e eu perguntei para minha equipe: ‘o que que é aquilo?' Me responderam: 'é a Concha Acústica do TCA'. 'Quantos lugares?', eu perguntei, '5 mil pessoas', responderam. Caramba.... Aí isso põe a sementinha aqui na nossa cabeça, e eu fiquei pensando: ‘um dia eu vou para lá, um dia eu vou para lá, um dia eu vou para lá’. Então claro, estou ansioso [...] Quando eu comecei eu tinha a lembrança de ouvir Maria Bethânia cantando ali, e agora estarei lá", destacou o cantor. 

 

Desde que retornou ao Brasil, em 2017, Thiago Arancam tem buscado popularizar o canto erudito. Para isso, o paulista decidiu adicionar em seu repertório músicas do pop e rodar pelo país com suas apresentações. Segundo Arancam, o público tem aceitado bem as mudanças e ele tem conseguido alcançar seu objetivo. 

 

"Tem tido uma resposta positiva de todas as pontas do Brasil que eu fui. Eu tive o privilégio de rodar inúmeras capitais, sempre com casa cheia, com o público bem receptivo, que canta mesmo que seja em outra língua, todas as faixas etárias. Eu venho ao longo dos anos tentando democratizar a música, num projeto de levar para todas as camadas sociais, tantas vezes em programas populares também, para ir quebrando esse paradigma e esse preconceito em relação a isso. Mas a aceitação está sendo a melhor possível".

 

Na entrevista, o cantor, que está na versão brasileira do musical “O Fantasma da Ópera”, ainda falou sobre sua participação na gravação da música "A Bahia Canta a Sua Santa", criada em homenagem a Santa Dulce dos Pobres, e sobre a homenagem que fez a Senhor do Bonfim na celebração da canonização de Irmã Dulce, que aconteceu no dia 20 de outubro, em Salvador. Ao BN, ele confessou que obteve uma graça após amarrar uma fitinha na Igreja do Bonfim, em Salvador.

Desde que você retornou ao Brasil, você tem trabalhado a junção do Erudito com a Música Popular Brasileira. Queria saber quando surgiu em você essa vontade de resgatar suas raízes, mesmo sendo um tenor, que tradicionalmente é associado à música clássica?
Eu, ao longo de todo esse decorrer de minha trajetória internacional, sempre fui um protagonista na ópera né, em que eu dava vida a um personagem e contava uma história. Eu vinha alimentando sempre um grande desejo, um sonho mesmo, de ter uma linha de frente onde eu não vestiria um pano de um personagem, onde eu seria eu mesmo, cantando músicas que me marcaram. Comecei muito cedo em São Paulo, vim das principais festas e eventos da capital paulistana, peças italianas também, mas tive um direcionamento focado para a ópera, então tudo isso veio junto com esse desejo que culminou na criação da minha turnê “Bela Primavera”, onde sim, ali eu sou Thiago Arancam e não sou um personagem que tem um nome como Cavaradossi, Pinkerton, Rodolfo, no caso de La Bohème, ou no Fantasma da Ópera, em que mesmo sendo intérprete, eu tenho um personagem, que é o Erik.

 

O popular também pode ser erudito? A obra de arte, como a música, pode ser reproduzida sem perder a sua essência? Ou é um “sacrilégio” transformar o erudito em popular ou o popular em erudito?

É uma grande questão, essa é uma boa pergunta. No meu conceito global de música, eu sempre vivenciei a música 360 graus, e dentro da minha concepção e do meu conceito eu sempre dei a mesma ênfase e peso dramático vocal e interpretativo das músicas, independente de uma ópera, da música popular em si. Claro que, classifica-se erudito tudo aquilo que é estudado, que a pessoa estudou, etc e tal, e popular aquilo que é da massa, do povo. Mas essa grande barreira, esse grande, digamos assim, muro, eu nunca visualizei. Tanto é que nos meus shows eu coloco canções como uma ária de ópera, que é Nessun Dorma, como Ave Maria de Gounod, como eu tenho canções de Frank Sinatra, Elvis Presley, canções de compositores brasileiros e internacionais, temas do Fantasma da Ópera... Então sempre procurei fazer a junção desses mundos, e levando o que é a força da interpretação no canto.

 

E agora com essas mudanças no seu repertório, adicionando músicas do pop, como tem sido a resposta do público? 
Tem tido uma resposta positiva de todas as pontas do Brasil que eu fui. Eu tive o privilégio de rodar inúmeras capitais, sempre com casa cheia, com o público bem receptivo, que canta mesmo que seja em outra língua, todas as faixas etárias. Eu venho ao longo dos anos tentando democratizar a música, num projeto de levar para todas as camadas sociais, tantas vezes em programas populares também, para ir quebrando esse paradigma e esse preconceito em relação a isso. Mas a aceitação está sendo a melhor possível, muito feliz em todas as cidades que fui. Inclusive voltar a Salvador para mais um show, na Concha Acústica agora, é o arco de tudo.

 

 

 

Você participou da gravação da música “A Bahia Canta a Sua Santa” em homenagem a Irmã Dulce. Queria que você me falasse de como foi o convite e como foi a gravação.

Olha, eu estava na Praia do Forte, onde ia realizar uma apresentação no Tivoli. Estava alguns dias antes, porque eu vim para refrescar um pouquinho a cabeça, ficar dois dias hospedado para depois fazer o show, e aí através do meu escritório que eu recebi o convite do Durval Lelys apresentando o projeto, e eu não hesitei, primeiro pela questão em si, cantar para nossa santa. Eu recebi a música, vi toda a estrutura musical e da poesia relacionada a isso, aprendi a música em uma hora, no caminho da Praia do Forte a Salvador, cheguei no estúdio e em meia hora gravei. Foi esse o processo, foi muito rápido, mas eu dediquei toda a emoção e estava fluindo muito forte dentro de mim esse tema, me identifiquei muito rápido com isso. Fiquei lisonjeado pelo convite, e nasceu isso, uma música belíssima, estupenda.


No dia 20 de outubro, você participou também da celebração da Santa Dulce dos Pobres aqui em Salvador. Como foi essa experiência para você? 
Ali é aquela coisa que acontece uma vez na vida, né? Só para transcrever isso, a emoção, eu praticamente nas 3 noites seguidas ao evento não conseguia dormir direito de tão grande que era a adrenalina e a emoção daquilo, daquele evento em si. A primeira missa, naquele estádio lotado, a energia que emanava daquilo, e eu poder dar voz a um hino tão importante... para todos nós, né? Um que representa muito, o Hino do Senhor do Bonfim. Eu que sou devoto. Inclusive, abrindo um parêntese aqui, na minha primeira vinda à Bahia estava cantando num cruzeiro, num navio, aí parei na Bahia, fui no Senhor do Bonfim, amarrei uma fitinha, pedindo que eu fosse um grande cantor que pudesse rodar o mundo, isso antes de eu rodar o mundo inteiro. E me atendeu, e culminou de eu estar ali fazendo uma homenagem a ele. Então é algo que me emociona e que me faz ser muito grato. 

 

No seu último álbum você mistura algumas ritmos e gêneros, como você definiu o repertório do Thiago Arancam Ao Vivo? 

O repertório do “Thiago Arancam ao vivo”, ele vem de uma construção desse processo criativo que a gente foi trabalhando desde o primeiro show da turnê, que se deu aqui em Salvador, no dia 15 de setembro de 2017. Ali resume tudo que é a turnê “Bela Primavera”. A gente foi construindo isso ao percorrer também da turnê, a gente tinha um repertório base, onde a gente estava num processo de transição entre o erudito e popular, junção da orquestra e da banda, com muitas músicas que ali ainda estão e com tantas outras que foram aparecendo, por exemplo, o medley de boleros, os temas do Fantasma da Ópera, que até então não estavam no nosso programa, ai eu fui protagonizar o musical e trouxe, a participação de Carmem Monarcha, que é o grande soprano, o projeto com Armandinho Macedo, Olodum e o projeto Brasil Afro Sinfônico, que está também nesse álbum ao vivo, então foi todo esse planejamento, foi se direcionando para isso. Essa é a base da nossa turnê, foi o CD ao vivo. 

Soube que você está ansioso para se apresentar na Concha Acústica do TCA, o que você já escutou sobre se apresentar lá? É importante levar a música dita erudita para um ambiente mais popular?
A primeira vez que eu soube da Concha Acústica, eu estava fazendo a estreia do meu show no Teatro Castro Alves, e tinha Maria Bethânia tocando na Concha. Aí do meu camarim, da janela, eu ouvi aquilo, aquela massa, todo mundo cantando e eu perguntei para minha equipe: ‘o que que é aquilo?' Me responderam: 'é a Concha Acústica do TCA'. 'Quantos lugares?', eu perguntei, '5 mil pessoas', responderam. Caramba...’. Aí isso põe a sementinha aqui na nossa cabeça, e eu fiquei pensando: ‘um dia eu vou para lá, um dia eu vou para lá, um dia eu vou para lá’. Então claro, estou ansioso e inclusive o meu escritório já trabalhou em várias produções de eventos lá, um DVD do Netinho que foi realizado lá. Meu empresário Rodolfo já tinha comentado muito da Concha, toda importância cultural que tem para a cidade. Tanto a orquestra também, a Osba né, que frequentemente faz projetos a nível popular ali, e lota. Então tem um público muito assíduo, e porque não encerrar a turnê nesse lugar? Quando eu comecei eu tinha a lembrança de ouvir Maria Bethânia cantando ali, e agora estarei lá.

 

Queria que você me falasse um pouco das participações do show de domingo. Você já chegou a se apresentar com Armandinho, Brasil Afro Sinfônico, e o Olodum em janeiro aqui em Salvador. Até fizeram a gravação da música, Ave Maria. E também tem a participação do maestro João Carlos Martins, como vai funcionar no show?

Minha felicidade em poder repetir esse número, que é as duas Aves Marias, nessa junção de percussão, orquestra e a guitarra baiana do Armandinho, e a honra de estar sendo regido, nessa ocasião, pelo Maestro João Carlos Martins, um grande amigo de longa data, nosso ícone da música erudita e também da música no geral. Ele é um ser humano de tamanha sensibilidade, um exemplo de superação em todos os aspectos, um homem que é uma locomotiva viva de todo esse novo percurso da música. Então o maestro nos dar essa honra de estar comigo no palco, fazendo uma peça comigo ao piano, ainda ele dentro da possibilidade vai tocar e eu vou cantar com ele, e a junção depois do Olodum, do Armandinho, e da nossa orquestra para as Aves Marias.

 

 


Você ainda está em cartaz até dezembro com a versão brasileira de “O Fantasma da Ópera, que foi a sua primeira participação em um musical, como está sendo participar da produção? O retorno dos espectadores?

A gente está em cartaz desde agosto do ano passado, ontem eu estava na minha apresentação número 329, em 13 meses, porque eu fiquei ausente um mês porque tive uma fratura no palco, no musical, mas assim, a experiência é a melhor possível. É um teste de força também, porque eu realizo sete, às vezes oito apresentações numa semana. Então a gente tem que dar conta tem que se entregar de corpo e alma para o personagem, tem que ter uma resistência física, psicológica e vocal muito grande. Como nome musical é o primeiro, mas a base é a mesma da ópera, onde é o teatro cantado, então assim, é a minha base de formação, eu sou diplomado na academia de canto do Teatro Alla Scala em Milão, Escola Internazionale della Musica, de Milão e Escola Cívica de la Musica da Itália. Então a base é a mesma, agora, o interessante é isso, que é uma rotina onde você tem que superar toda e qualquer dificuldade sua, se você tiver um problema, tiver mal de saúde, mas se você tiver condição de estar no palco, você está, então eu tô a 329 shows cantando e a gente tem até dia 15 de Dezembro mais 49 apresentações.    

 

Você pretende seguir participando de montagens como essa? Acha que o Brasil tem mercado para musicais? Há uma crítica recente sobre as limitações impostas pelo governo federal para captação de recursos para montagens assim.
Público tem, porque eu sou a prova viva de que a gente tem a cada noite 1500 espectadores, uma média de 10 mil por semana, a gente já bateu a marca de meio milhão de espectadores ao longo da nossa temporada. O mercado, eu falo do eixo Rio-São Paulo, assim, eu não era muito frequente nesse mercado, mas eu comecei a entender, é um mercado que estava em plena expansão, com mais de 70 musicais visitados esse ano em São Paulo. Isso gera um impacto de mais de um bilhão e 100 milhões para a economia da cidade de São Paulo, gera emprego e move todas as camadas econômicas. E sim, as imposições estão sendo feitas agora, a classe está tentando se readequar em relação a isso. Bom, a minha carreira, ela é aberta em muitas frentes, né, o meu foco principal é a minha turnê como Thiago Arancam, como é o meu intuito de eu ter vindo de fora. Apareceu o Fantasma da Ópera, mas dentro do meu país num conceito que foi importante para somar ao meu nome, ao meu trabalho. Mas claro, como artista múltiplo nessa área, eu tô sempre aberto a convites, não tenho nada planejado ainda, mas eu avalio obviamente os convites e aí se for bom para o Thiago Arancam, no caso, vai ser bom para o público musical.

 

Quais são os planos para o ano que vem? 
A gente acaba a turnê aqui, o Fantasma da Ópera até o dia 15 de dezembro, imediatamente embarco para um cruzeiro onde eu faço um show especial de Natal, e já começo do ano que vem a gente começa uma nova turnê, com a experiência acumulada dessa nova, com muitas coisas interessantes, algumas surpresas, inclusive nesse show aqui de Salvador terão alguns fragmentos dessa nova turnê, uma mudança um pouco do repertório, do conceito visual, do conceito musical também, mas continuar levando o nome Thiago Arancam pelo Brasil e mundo afora.

 

SERVIÇO
O QUÊ:
 Thiago Arancam - “Bela Primavera”
QUANDO: Domingo, 3 de novembro, às 19h
ONDE: Concha Acústica do Teatro Castro Alves – Salvador (BA)
VALOR: Pista - 1º Lote: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia), 2º Lote: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia) e 3º Lote: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia) | Camarote: R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia)

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