Quinta, 30 de Maio de 2019 - 11:10

Pela 1º vez atuando com o pai, Rocco Pitanga diz que Antônio ‘quebrou tabus para ator negro’

por Rebeca Menezes / Lara Teixeira

Pela 1º vez atuando com o pai, Rocco Pitanga diz que Antônio ‘quebrou tabus para ator negro’
Foto: Divulgação / Rafael Aguiar

Salvador será palco do encontro entre um homem africano e um jovem pesquisador brasileiro que irão discutir sobre a diáspora. No espetáculo inédito "Embarque Imediato", Antônio Pitanga e Rocco Pitanga contracenam juntos pela primeira vez e ainda contam com a participação virtual de Camila Pitanga.

 

A trama acontece em um aeroporto após ambos personagens terem perdidos seus passaportes durante uma conexão de voo. A partir disso, inicia-se um debate sobre história, identidade e cultura ligados à diáspora africana. 

 

“A gente bota uma questão para ser refletida e ser talvez resolvida por cada um que sair do espetáculo com seu entendimento. A questão é colocada por dois pontos de vistas, de uma pessoa que tem mais tempo de vida, que já tem seus 80 anos, e um jovem de 39 anos. Os dois, dentro do seu conhecimento cultural, expõem argumentos que são ideais para cada um. Isso é bacana porque acaba sendo generoso, porque cada um tem a sua história, sua caminhada, sua trajetória”, contou Rocco Pitanga ao Bahia Notícias. 

 

Antônio Pitanga irá celebrar 80 anos durante o período em que o espetáculo estará em cartaz. E de acordo com seu filho, é inspirador ver o pai ainda se dedicando ao mundo artístico. 

 

"Ele é um homem de 79 anos cheio de garra, de vontade, talentoso. Isso me inspira, me motiva, e me coloca em um lugar onde me dá vontade de querer mais também. Então é extremamente motivador ter não só o meu pai, mas o Antônio Pitanga, que é uma pessoa que tem uma trajetória muito bonita e admirável de quebras de tabus, de personagens historicamente falando da questão negra, de conseguir se mostrar, e ser referência com personagens que não fossem aquele padrão normal que normalmente dão para o ator negro", declarou.

 

“Embarque Imediato” estreia na Sala do Coro do Teatro Castro Alves nesta quinta-feira (30), às 20h e ficará na capital baiana até o dia 16 de junho.

 

Na peça vocês abordam os lados positivos e negativos da diáspora africana. Qual é a importância de tratar esse assunto, principalmente nos tempos que estamos vivendo agora?
Eu acho que a gente na verdade não tem nenhum tipo de pretensão de ser o dono da verdade. A gente coloca uma questão para ser refletida e ser talvez resolvida por cada um que sair do espetáculo com seu entendimento. A questão é colocada por dois pontos de vistas, de uma pessoa que tem mais tempo de vida, que já tem seus 80 anos, e um jovem de 39 anos. Os dois, dentro do seu conhecimento cultural, expõem argumentos que são ideais para cada um. Isso é bacana porque acaba sendo generoso, porque cada um tem a sua história, sua caminhada, sua trajetória. Eu acho que jogar esse assunto e deixar que o próprio expectador se conscientize das possibilidades dos argumentos e sozinho entenda dentro do seu próprio ponto de vista é muito bacana, é muito interessante e muito generoso.

 

Há quanto tempo vocês estão se preparando para a peça?
A gente na verdade está em um momento cultural do Brasil em que não se tem muito apoio para a cultura. "Embarque Imediato" não é um espetáculo com o orçamento alto. A gente teve um período de 1 mês de ensaio e chegou na Bahia há duas semanas. Acho que talvez a facilidade é de ser meu pai e a gente ter um pouco mais de possibilidades de poder bater o texto juntos. Mas a gente teve um prazo de um mês de ensaio.

 

É a primeira vez que você e o seu pai estão contracenando juntos. Essa ideia partiu de você, dele ou do Aldri Anunciação (responsável pelo texto da peça)?
Foi um convite do Aldri com o Márcio Meirelles, que nos fizeram essa proposta. A gente há algum tempo, indiretamente talvez, já estivesse a fim de fazer um projeto junto, mas a vida do dia a dia corrido não tinha deixado. Meu pai tem 79 anos, vai fazer 80 no palco, mas é um cara que nunca parou, está sempre fazendo algum tipo de projeto. Vai sair dessa peça, já vai para Santa Catarina filmar um longa, já tem uma outra proposta de uma série, eu tô fazendo uma série e a peça... Então acaba que a vida de uma certa forma criou esse distanciamento no sentido profissional. É uma certa diáspora também, dependendo do olhar que a gente enxerga esse ciclo.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Peça: Embarque Imediato 30 de maio a 16 de junho Quinta a domingo as 20:00 Sala coro do teatro Castro Alves #bahia #salvador #teatro

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O quão inspirador é para você ver o seu pai prestes a completar 80 anos, ainda atuando, com esse mesmo vigor e vontade de atuar?
É totalmente inspirador e motivador, porque é um homem de 79 anos cheio de garra, de vontade, talentoso. Isso me inspira, me motiva, e me coloca em um lugar onde me dá vontade de querer mais também. Então é extremamente motivador ter não só o meu pai, mas o Antônio Pitanga, que é uma pessoa que tem uma trajetória muito bonita e admirável de quebras de tabus, de personagens historicamente falando da questão negra, de conseguir se mostrar, e ser referência com personagens que não fossem aquele padrão normal que normalmente dão para o ator negro.

 

Além de ter no palco você e o seu pai, a peça ainda conta com a participação virtual de Camila Pitanga. É de certa forma um marco para a família de vocês. O próprio Márcio Meirelles disse que é um momento muito emotivo. Pra você, o que representa esse momento?
É uma estreia dos três no palco. Por mais que a Camila não esteja presencialmente, ela tem uma figura dela de corpo inteiro que aparece em uma cena grande, então ela também está com a gente estreando juntos. É um lugar tocante, onde eu sou o caçula da família, então da mesma maneira que eu falo, eu não coloco nem como meu pai, nem como minha irmã, mas como o Antônio Pitanga, que é uma figura admirável, não só por mim, mas por outras pessoas, é uma referência. A gente está falando de Camila Pitanga também, que tem uma trajetória muito bonita, muito sucesso. E estar com essas duas figuras no palco é agregador para caramba. Junto a isso, essas figuras são meu pai e minha irmã, então é um carinho bem maior à parte. Estou estreando no mesmo lugar da onde vem o meu pai, ele é de Salvador, baiano. Eu até fiz uma brincadeira no meu Instagram: a gente estreia na Sala do Coro do TCA, mas ensaiamos no palco principal. Eu pisei e falei: 'eu vou registrar, estou passando minha peça. Por mais que seja uma passagem, estou no palco do Castro Alves, já posso dizer que fiz uma peça na sala principal do Castro Alves.' Não foi aberta ao público, mas para as pessoas que estavam ali - algumas da produção, o Marcio convidou alguns estudantes que participam  de um projeto dele no Teatro Vila Velha, que é um pessoal muito talentoso e que também agrega muito no sentido de estar fazendo parte na montagem, do espetáculo, tanto da luz quanto do cenário -, é uma emoção diferente. Estou sendo presenteado de várias formas.

 


Foto: Divulgação / Rafael Aguiar

 

Você até comentou sobre o seu pai ser soteropolitano, e Salvador é a cidade mais negra fora da África. Essas foram coisas que vocês consideraram para estrear o espetáculo aqui em Salvador?
Essa parte eu não sei. Eu falo muito de mim como ator, como processo, mas tem pessoas mais importantes para falar sobre esse ponto. Mas está sendo muito bacana poder estrear essa peça, já que tem esse assunto, em Salvador, da onde meu pai é, aonde teve um encontro dele com a profissão, da onde ele mesmo fala que trouxe toda a cidadania para ele. Então estamos falando de palco de teatro e para mim tem esse olhar de importância também, poder simular várias possibilidades. O teatro para mim é isso, ter a possibilidade de simular uma vida que talvez eu não viveria na vida real. Talvez esse encontro entre esse cidadão que vem da África com um personagem ocidental não acontecesse nesse meu momento da vida, nessas condições, então o teatro está me dando esse presente de poder estar no palco com essa figura que é meu pai, e tem uma história muito grande e muito parecida com toda essa história. Meu pai já foi para a África, ele já conheceu vários lugares, eu só fui para Angola fazer a primeira novela de lá, mas se a gente parar para colocar mais ao pé da letra, o meu pai tem muito mais conhecimento cultural da nossa raiz real, da onde vem a história toda, do que eu. Não só teoricamente falando, mas digo de sair mesmo, foi viajar, morou na África, e eu tive a coincidência de ir fazer um projeto, fiquei três meses em Angola... Enfim, acho que tudo isso é positivo.

 

Então foi uma coincidência?

Para mim pode ser coincidência alguns fatos, para ele talvez não. Tem pessoas que dizem que não existe coincidência, mas estamos em um momento que é muito propício no sentido positivo. A gente ia estrear essa peça no ano passado, em um outro momento, em que algumas questões não tinham acontecido. Agora estamos em um momento de correções de questões que foram lesadas lá atrás, em que a gente vê muito jovens negros sendo lesados pelo próprio racismo, e peça tem essa questão de informação, onde se explica muita coisa. Para o negro é um espetáculo que dá a oportunidade de se alimentar e se empoderar a partir das informações. Eu acho que as informações são as melhores ferramentas de argumentação, de diálogo, de discussão. Agora eu tô meio tenso de falar a palavra arma, arma tá indo para um lugar muito concreto, mas é a melhor arma de discussão de ferramenta é a informação.

 

O espetáculo fala muito sobre o reconhecimento das nossas origens e também de identidade. No ano passado, se aprofundou ainda mais a discussão sobre representatividade negra nas produções da TV aberta. Você acredita que houve algum impacto positivo nessa discussão? Ou a situação continua igual?
Eu acho que a partir do momento que se cria mais a discussão é que se entende mais que existe o problema. Acho que quando essa questão se revela a gente consegue entender quais são os sintomas para que a gente possa resolver. No ano passado, com todas as essas discussões que foram expostas, entendendo por esse local, a melhora já começa daí. Independente do que aconteceu como desdobramento ou não, existe uma conscientização onde eu olho e eu vejo os negros se colocando como negros, não tem mais o "moreninho", "não eu sou Negro", coisa que há muito tempo atrás eu não enxergava na minha fase adolescente ou de criança. Hoje eu já vejo empoderamento nesse sentido, então é uma melhora. Eu não sei o tamanho que isso vai ocasionar daqui a dez anos, um passo a frente você já não está mais no mesmo lugar, mas quantos passos a gente precisa dar para que a gente consiga ter um desdobramento melhor ou positivo?

 

Você está otimista...

Não otimista, porque otimista que sou, sempre fui, até pelo contato com meu pai, que é uma pessoa que sempre esteve presente na cena e isso para mim já é falar sobre o assunto, resolver o assunto. Eu acho que às vezes somente a indignação não resolve nada, eu acho que o fazer, o agir é o resultado que desdobra em coisas positivas. Ele tem uma fala que é: "um negro de sucesso liberta mais mil negros", porque dá como referência um olhar de: "caramba, aquele cara está lá, então eu também sou capaz de estar lá". Quando você vê um cenário onde você vê referências, onde você se identifica e tão bem sucedidas, independente da área - independente do que é sucesso também, porque sucesso é uma palavra muito subjetiva... agora ver um ser humano feliz, realizado, isso para mim é sucesso. Então, cara, eu olho para ele e vejo um cara de sucesso na vida profissional, feliz com as suas escolhas, no sentido de aceitação ou não, porque já teve oportunidade de fazer trabalhos que pudessem financeiramente acrescentá-lo mais e ele não aceitou porque não era o discurso que ele acreditava. Então isso me faz olhar e pensar: "eu posso dizer não também para uma coisa e dizer sim para o que eu acredito". Posso não querer fazer um personagem porque é o perfil do seu personagem "é esse". E eu questiono: por que o perfil tem que ser esse? Por que eu não posso ser o super herói? O protagonista principal da novela? E se eu for, por que tem que ser nessas condições? Então a caminhada e o cenário que meu pai apresentou me faz olhar para isso e me faz refletir sobre isso, e acredito que também faça o nosso redor também refletir. E já são esses mil negros atrás também que podem olhar e falar: "eu vi uma pessoa que escolheu diferente e foi realizada. Ela não aceitou o mínimo, acreditando que só pudesse o mínimo". Eu vi uma cena há um tempo. Eu estava andando de bicicleta e vi um cara de terno e gravata, usando aquele disco (segway), e era um negro bonito, de terno alinhado, e o cara estava na praia, com aquela imagem de bem sucedido. Isso me alimenta, eu posso ser esse cara também, e outras pessoas também podem. A gente não precisa ser só o que é o padrão que a mídia e o mercado publicitário forjam como o possível. O possível é o que a gente quer. A minha filha gosta muito de um filme que é ‘Alice No País das Maravilhas’, e tem duas falas que eu acho do caramba: ‘o impossível só se torna possível quando alguém acredita’, quer dizer, pode ser possível, e também quando dizem que: ‘a gente não pode mudar o passado, mas a gente pode aprender com ele e, a partir dele, fazer uma nova história no futuro’. 

 

SERVIÇO
O QUÊ:
"Embarque imediato"
QUANDO: De 30 de maio a 16 de junho, às 20h
ONDE: Sala do Coro do Teatro Castro Alves, Campo Grande
VALOR: R$ 30 inteira e R$ 15 meia

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