‘É difícil fazer uma arte que não fale de política’, diz integrante da banda Francisco, el Hombre
Foto: Divulgação

A banda paulistana Francisco, el Hombre, que mistura ritmos latinos e brasileiros a influências do punk rock, irá se apresentar pela segunda vez em Salvador com a turnê do seu último disco “Soltasbruxas”, nesta sexta-feira (26), no Pátio do Goethe-Institut, no Corredor da Vitória, às 20h. 

 

O grupo é formado pelos irmãos mexicanos naturalizados brasileiros Sebastián Piracés-Ugarte (vocal, percussão e violão) e Mateo Piracés-Ugarte (vocal e violão), além de Juliana Strassacapa (vocal e percussão), Andrei Martinez Kozyreff (guitarra) e Rafael Gomes (baixo, vocal de apoio).

 

A banda é famosa por abordar questões políticas e sociais em suas músicas e está prestes a fechar o ciclo de "Soltasbruxas". Por isso, Mateo contou ao Bahia Notícias de que maneira o cenário político atual estará presente na nova produção da banda. "Isso (a política) está entrando no disco de uma forma muito forte. Tentar falar sobre essa tensão velada e dessa violência velada dentro da ansiedade de cada um. No disco estamos falando muito sobre violência, sobre polarização, estamos incendiando de dentro e chamando o público para se incendiar mesmo".

 

Além disso, o músico destacou que "é muito difícil fazer uma arte que não fale de política", porque para ele a arte funciona como um instrumento de comunicação para poder falar dos dias atuais. "A música, que é um elemento comunicativo e gera união, ajuda a falar da nossa época. Então quando a gente fala de união, e estamos em um momento político de muita polarização e divisão, é muito necessário causar um coro de vozes do mesmo lado”. 

 

Esse ano sem dúvidas tem sido de muitas realizações para vocês, com participações em diversos festivais. Como vocês avaliam esse ano para a banda? 
Cara, é muito louco, porque eu olho em perspectivas esse ano e eu não consigo lembrar de todas as coisas que a gente fez, porque foi muita coisa. Então parece que a gente começou dois anos atrás. Vários países que a gente foi, como Chile, Equador, Colômbia, México, Argentina, Uruguai, agora vamos para Portugal e Espanha, fizemos todo o Brasil e isso para mim é uma coisa que é difícil de medir enquanto está rolando. Por isso eu acho que o ano novo, a virada de ano é tão importante, porque você olha para trás e fala: "Cara, eu fiz tudo isso? Aonde eu quero chegar no próximo ano?". Então eu acho que é uma despedida do "Soltasbruxas", e foi super positivo.

 

Durante esses diversos festivais que vocês têm participado, vocês acabam encontrando outras bandas, e de certa forma ajudando a fortalecer o cenário da música nacional. O que essa relação durante os festivais tem gerado para vocês?
Os camarins dos festivais parecem festas de casamento de alguém do colégio, porque as bandas raramente têm tempo de se encontrar porque estão sempre viajando, mas quando elas se encontram é uma grande festa de pura alegria. E nesses camarins que a gente tem duas horas para ficar todo mundo junto é um invadindo o camarim do outro, um cantando, um que quer subir no palco do outro, elogiando, todo mundo fica bêbado, vai para o hotel, depois quer invadir o quarto do outro... Então é um sentimento maravilhoso de irmandade, de uma pessoa que você vê pouco, mas você sabe que te entende muito bem, porque os dois são músicos e vivem nessa coisa paralela.

 

Como foi para vocês abrir o último dia do Lollapalooza, ainda mais dedicando o show ao produtor Carlos Eduardo Miranda? Como vocês podem descrever aquele momento para a banda?
Foi muito massa, porque o Lolla para a gente era, principalmente, a oportunidade de chegar até ouvidos que não nos conhecem normalmente, para expandir além de uma bolha. E foi super legal também até para ver os outros shows que estão no Lolla de bandas brasileiras, que são muito bons, e compará-los com os shows de fora. A real é que o Brasil está muito bem, a música brasileira está muito criativa, os shows dos brasileiros são muito f***, então dá orgulho de estar participando dessa cena latino-americana que está cada vez ficando tão boa que é melhor que muitos shows que eu vi no Lollapalooza. Eu acho que esse foi o melhor sentimento, de ver como essa cena está exigindo cada vez mais e mais.

 

Vocês estão chegando à reta final da turnê do “Soltasbruxas” e, sem dúvidas, o álbum foi um divisor de águas na carreira de vocês, até pelos posicionamentos políticos que vocês trouxeram nas letras. Como vocês entendem o papel da arte nesse processo todo?
Para mim é muito difícil fazer uma arte que não fale de política. Porque eu uso a arte como um instrumento para falar da nossa época, um instrumento de comunicação para falar do agora. Como a música, que é um elemento muito comunicativo e gera união, ajuda a falar da nossa época. Então quando a gente fala de união e estamos em um momento político de muita polarização e divisão, é muito necessário causar um coro de vozes do mesmo lado. Mas agora, tem gente que não entende a música como necessariamente política, eu acho que a música não é necessariamente nada. A real é que eu posso falar para mim mesmo, que fazer música para mim é falar da nossa época.

 

 

Vocês escreveram há 2 anos a música “Bolso Nada”, e ela aborda coisas como fascismo e outros elemento políticos. Ela foi direcionada ao Jair Bolsonaro? 
Ela foi direcionada a muitas pessoas, e tem muita gente que se encaixa no perfil do "Bolso Nada", muitos políticos e muitos empresários. Agora essa carapuça serve muito bem ao Bolsonaro e com certeza está na nossa cabeça, e com certeza a figura dele estava na nossa cabeça quando a gente fez a música. Mas não é só ele, até porque o Bolsonaro é só um, assim que ele cair vem outros atrás.

 

Como tem sido a repercussão dela com relação ao momento político atual?  
Boa e ruim. Por um lado boa porque muita gente tem usado ela como um hino de força para continuar cantando as coisas que acreditam e destacando o fascismo que tem crescido no Brasil e no mundo. E tem também muito ataque, muitas ameaças, muitos xingamentos feitos a nós. Mas nós colocamos a nossa cara a tapa, resolvemos falar sobre o que nós acreditávamos. Então se fizemos isso, estamos levando nossos tapas e se incomodou, é porque tocou uma ferida, e tocar uma ferida faz a gente levantar uma pergunta, e só me dá vontade de fazer mais ainda.

A música “Triste, louca ou má”, composta pela Juliana, teve uma aceitação muito grande do público e especialmente pelos movimentos feministas. Como vocês veem a importância de abordar temas como esses nas canções? 
Para mim, a gente vê muito como espectador. Toda vez que a gente toca é parar para assistir a Ju se empoderar cada vez mais. E naquele momento ela empodera todo mundo que está ali junto cantando também. Como homem dentro da banda, eu tenho a sorte de ver isso de perto e de camarote e eu acho maravilhoso, é sempre surpreendente. A importância de ter uma música com uma letra que a priori parece que é simples, e depois você percebe a importância que isso toma, e vê que coisas simples não são faladas, e como homem da banda eu agradeço muito por estar vendo de perto o empoderamento das "minas" que está crescendo tanto. Eu tenho aprendido muito, cada vez que a gente toca é um aprendizado.

 

A música ainda fez com que vocês fossem indicados ao Grammy Latino de 2017 na categoria Melhor Canção em Língua Portuguesa e ainda foi trilha da novela da Rede Globo “Do Outro Lado do Paraíso”. O que isso trouxe de retorno para vocês? 
O Grammy não trouxe tanto retorno a não ser o retorno "institucional". Querendo ou não, a família não apoia a "ovelha negra" que quer ser músico, mas no momento que você é indicado ao Grammy, todo mundo fala "sempre apoiamos vocês". Eu não digo isso dos meus pais, que sempre apoiaram, mas outros elementos ali. Sobre a trilha da novela, ela não trouxe muita luz para a banda, a questão que mais se destacou foi a letra e a mensagem da música, ela definitivamente chegou em um lugar que não esperávamos através da novela. "A vó do interior do Piauí ouviu", então isso foi ótimo porque a letra por si só tem um comunicado e uma mensagem super forte. E ver isso chegando tão longe foi muito louco.

 

 

Vocês cantam também em espanhol e trazem elementos da sonoridade latina. A banda tem como objetivo fazer esse intercâmbio entre países latino-americanos? 
Com certeza é o nosso objetivo, porque a gente iniciou a banda viajando entre um país e outro e na estrada a gente precisava criar um show que se comunica-se com todos os países ao mesmo tempo. E até hoje nós estamos nessa linguagem, porque a gente vai para vários países e começa a perceber que dá para criar várias pontes de conexão dentro do show, que conectam tanto o público da Colômbia quanto do Nordeste. É um desafio da banda andar em cima desses pontos de conexão da América Latina. 

 

Com relação à performance de vocês no palco, em que vocês se expressam de forma tão energética, de onde surgiu a inspiração?
Tem várias referências. A verdade é que desde o começo a gente vem tentando se reinventar, e discutir conceitos de beleza e estereótipos do homem, da mulher. Com certeza tem muita referência de uma maquiadora e performer, que é do Rio Grande do Sul, a Alma Negrot. E a gente está sempre se reinventando, e isso é muito gostoso. Nós nos sentimos uma borboleta, que em cada show sai do casulo.

 

O último disco que vocês foi lançado em 2016, e vocês já estão em processo do novo álbum. Você pode falar um pouco sobre a produção dele, e se de alguma forma essa mistura de emoções que os brasileiros estão sentindo interfere na produção das músicas? 
Com certeza, até porque estamos em um clima de tensão tão forte que no momento que você entra em um lugar parece que, a partir do momento que alguém falou de política, todo mundo vai ficar quieto porque não sabe o que o outro vai falar. Isso está entrando no disco de uma forma muito forte, tentar falar sobre essa tensão velada e dessa violência velada dentro da ansiedade de cada um. No disco estamos falando muito sobre violência, sobre polarização, estamos incendiando de dentro e chamando o público para se incendiar mesmo". 

 

Vocês lançaram no último dia 19 a música “Clareia”,  em parceria com a banda Scalene. Me fala um pouco sobre o significado dela... 
Pra gente significa um negócio muito lindo, que volta para a primeira pergunta que você fez sobre os festivais. A gente é muito amigo de muitas bandas que normalmente as pessoas veem e acham que não tem nada a ver uma banda com a outra. Quem vê a gente no nosso primeiro EP, com nosso som que parecia de hippies na praça, que eu adoro, de repente participa de uma música com uma banda de rock como a Scalene, e a galera realmente não entende. Só que a real é que a gente é muito amigo para além daquilo que a gente toca. Então quando eles convidaram a gente para tocar eles falaram: "Vamos sentar e tirar aquele som que a gente acha mais gostoso de fazer, f***-se os gêneros musicais, só vamos começar a tocar", e começou a sair um som que representa a nós dois. A letra foi se moldando para dizer o quanto a música é importante para a gente como meio de colocar para fora os sentimentos. A melhor terapia é colocando música para fora, então "Clareia" vem com vários gêneros musicais: tem rock, tem reggae, latinidade, e fala sobre a gente curtir fazer som”. 

 

E com relação ao clipe, vocês fizeram algo super descontraído em meio ao caos que o país está vivendo. Qual foi o intuito de vocês com isso?
É muito importante a gente tirar as crianças que existem dentro da gente. É muito legal de verdade, se você se coloca em uma brincadeira de criança, você percebe que às vezes sua "treta" com outras pessoas é algo muito banal, e tem muito mais a ver com picuinha de adolescente ou adulto do que divergências verdadeiras ou uma incapacidade de realmente resolver um problema. O clipe é muito para a gente exaltar a criança que tem dentro de nós, diante da música, diante da política, diante do mundo. A gente fez uma música, sobre fazer música, um clipe sobre amigos, e é uma coisa muito leve. E é realmente para ser isso, não é para ter muito um significado por trás. Nós gostamos de música, e estamos curtindo, realmente fazendo um som, independente dos nossos estilos serem diferentes.

 

 


E falando sobre o show em Salvador, como está a expectativa da banda? 
Vai ser o nosso segundo show em Salvador e a nossa expectativa está muito alta. Estamos curiosos para ver como a galera recebeu o nosso disco nesse último ano, porque a gente está com "sangue nos olhos", porque é uma despedida de um disco que trouxe tanta coisa boa para gente. A gente está vindo com tudo em cima do palco, eu estou curioso para ver se a galera acompanha nesse clima de despedida que nós estamos.

 

E após finalizar a turnê, quais são os próximos planos do Francisco, el Hombre? 
Nós vamos lançar o primeiro single do próximo disco no dia 2 de novembro, junto com a música vai sair um clipe também. A data celebra o Dia de Finados, então vamos abordar o dia dos mortos no México e como a gente ressignificou a morte na nossa turnê no México.

 

SERVIÇO
O QUÊ: 
Francisco, el Hombre
QUANDO: Sexta-feira, 26 de outubro, às 20h
ONDE: Pátio do Goethe-Institut – Corredor da Vitória – Salvador (BA)
VALOR: Lote 01 - R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) | Lote 02 - R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)

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