Utopia Pop: Neste 2 de Julho, povo baiano não pôde 'chorar no pé do Caboclo' por fim da Covid
Foto: Matheus Wittkowski

A coluna de hoje é dedicada ao saudoso cortejo do 2 de julho, que pela primeira vez na história, em 197 anos, não foi realizado. Pela primeira vez as pessoas não saíram às ruas para lutar e clamar por sua independência. Pela primeira vez não ouvimos o clamor e o sentimento de pertencimento do povo baiano ecoando nas estreitas ruas da cidade, nem as marchas e nem as fanfarras se fizeram presentes.  

 

É impossível se afastar desse texto e fazer algo mais formal, direto e impessoal ao falar do tão próximo e afável Dois de Julho, que para nós baianos é muito mais do que um desfile, é algo que já está em nosso subconsciente, que foi passado de pai para filho, e de mãe para filha. 

  

Tenho certeza que todos nós baianos hoje compartilhamos desse sentimento. Sentimos o duro aperto no coração de ver o nosso 2 de julho, que simboliza a verdadeira Independência do país, "passando em branco", claro se não fosse o grande movimento virtual em prol da história.     



Foto: Deivide Sacramento 

 

Sim, não há registros que o desfile da Independência tenha sofrido interrupção. Nem a Gripe Espanhola em 1918 foi capaz de retirar o cortejo das ruas. O Caboclo está presente nas comemorações da Independência do Brasil na Bahia desde 1824. Mais tarde, em 1826, foi esculpida a imagem do Caboclo para circular nas ruas.   

 

Quando o Presidente e Comandante de Armas da Província, o Tenente José de Souza Soares de Andrea, tentou retirar a imagem do Caboclo das ruas, houve resistência popular, e a imagem da Cabocla construída para substituir a do Caboclo passou a integrar também o desfile. 



Foto: Deivide Sacramento 
  

Nos primeiros anos da República,  com o objetivo de transformar o Dois de Julho em um evento livre de aspectos religiosos ou adorações, a elite política baiana tentou a retirada os Caboclos do cortejo, mas a população não comparecia às festividades e promovia seu próprio desfile em uma data diferente, provando mais uma vez que o 2 de Julho pertence ao povo.   

 

Todos os anos a indumentária das imagens, atualmente aos cuidados do artista plástico João Marcelo Ribeiro, recebem cores diferentes e que representam o momento atual que estamos vivendo, como foi o caso de 2012 que desfilaram com detalhes brancos para chamar a paz, e no ano passado com azul, representando a capital baiana. Fico pensando o quão inteligente teria sido usar essa indumentária este ano para comunicar a importância do uso de máscaras, principalmente no momento atual no qual vivemos. 

 

Em 1923, os Caboclos não desfilaram, no lugar os organizadores promoveram a saída da imagem do Senhor do Bonfim em procissão marítima, já que para as classes dominantes da época, a imagem de um santo católico era mais aceitável do que a de um índio associado ao candomblé.   



Foto: Deivide Sacramento 


Em 2020 o fato se repete, não veremos as figuras emblemáticas dos Caboclos nas ruas. Embora a Fundação Gregório de Mattos tenha sugerido que o Caboclo desfilasse sem aglomeração e sem pessoas nas ruas, o prefeito ACM Neto rechaçou a proposta. Porém, a imagem peregrina do Senhor do Bonfim percorreu vários bairros da capital baiana sob aplausos e devoção de fiéis que acompanharam, mesmo durante a pandemia da Covid-19, e que contou com a presença do prefeito e do vice-prefeito de Salvador, Bruno Reis. 

  

Ao longo de todo o trajeto fiéis puderam acompanhar a peregrinação com orações, estendendo toalhas e lenços nas janelas e varandas das casas, acenando e pedindo pelo fim da pandemia. Não podemos negar que a figura dos Caboclos da Independência são mais do que símbolos de luta, mas também existe todo o aspecto religioso envolvido, já que há um parentesco simbólico entre o Caboclo da Independência e o Caboclo do Candomblé.  

 

Milhares de pessoas reservam o 2 de julho para seus pedidos e preces. Neste ano, nem de longe, das sacadas de suas casas e apartamentos, poderão chorar no pé do caboclo e pedir pelo fim da pandemia e que abençoe a autonomia e a força do povo baiano. Guardemos para 2021 as nossas forças para que essa data continue relevante entre as gerações e para que o "Sonho de Liberdade" aconteça. 

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