Sexta, 13 de Setembro de 2019 - 10:10

30 anos sem Raul: Mick Jagger e o fracasso do primeiro disco

por Pacheco Maia

30 anos sem Raul: Mick Jagger e o fracasso do primeiro disco
Jagger esteve em Arembepe em 1969 | Foto: Acervo pessoal

Depois do encontro fracassado com Carlos Imperial, que desprezou a banda, Raulzito e Os Panteras foram tentar a sorte na gravadora CBS. Estavam no corredor, aguardando o teste, quando Roberto Carlos passou por eles. "Você sabe quem somos?". Roberto respondeu: "Claro, são Raulzito e Os Panteras, lá da Bahia". 

 

O reconhecimento do Rei encheu a banda de moral. O problema foi que os produtores da gravadora confundiram o trabalho de Raulzito e Os Panteras com o de Renato e Seus Blue Caps. "Eles acharam que nós também fazíamos a linha do iê, iê, iê romântico. Nos recomendaram ir procurar a concorrente, EMI-Odeon", conta Mariano.

 

Eufórica, a banda seguiu a dica e foi tentar a sorte na EMI-Odeon. Conseguiram assinar contrato com a gravadora. Apresentaram o repertório, no qual constava uma versão em português para “Lucy in the sky with diamonds”, uma das faixas de Sgt Pepper’s, do Beatles, lançado em meados daquele ano de 1967.

 

Na hora de gravar a versão “Você ainda pode sonhar”, o produtor designado para cuidar deles encrespou com o verso “Pense num dia com cheiro de jaca”. Considerou imprópria a metáfora e a canção foi gravada com a seguinte alteração: “pense num dia com gosto de infância”.

 

A empolgação dos baianos era grande com a realização daquele sonho de gravar um disco. Mas retornaram a Salvador para passar o Natal e o Réveillon. Só precisariam voltar depois do Carnaval para trabalhar a divulgação do disco nas rádios. O retorno à cidade natal foi marcado por surpresas naquele Verão de 1968.

 

No Verão de 1968, a praia de Arembepe, a 40 quilômetros de Salvador, era a capital do movimento hippie no Hemisfério Sul. Por lá, passavam grandes celebridades da contracultura. Entre elas, naquele ano, quem apareceu foi o casal Mick Jagger e Marianne Faithfull.

 

Carleba e Eládio estavam na Lavagem do Bonfim, em janeiro, quando viram aquele casal se destacando no meio da multidão, não só pela cor da pele, mas também pelos trajes hippies. 

 

Eládio foi correndo avisar a Raul que Mick Jagger estava em Salvador. Os dois rumaram para o Hotel da Bahia, onde o casal estava hospedado. Quando entraram no saguão do hotel, Raul viu um velho colega de colégio, Lalado, e lhe contou a novidade. Lalado não só sabia da presença dos ilustres em Salvador, como também se tornara amigo deles. 

 

Raul, então, pediu para ser apresentado aos popstars. Lalado prontamente atendeu o amigo e, logo, Mick Jagger estava no saguão do Hotel da Bahia, conversando com Raul. Eládio, que presenciou o diálogo, sorri quando lembra que Raul se apresentou em inglês perfeito dizendo que era colega de gravadora de Jagger. 

 

Depois desse incrível encontro naquele mágico verão de 68, Raulzito e os Panteras voltam ao Rio de Janeiro. Mas, a alegria de ver realizado o sonho em vinil se desmanchou com a frustração de não ouvir o disco no rádio. Sem apoio da EMI-Odeon, os primeiros rockers baianos passaram por agruras na Cidade Maravilhosa. Era o "tempo da fome", como cantou Raul Seixas, em "Ouro de Tolo". 

 

Carleba, baterista dos Panteras, lembra a penitência que foi a divulgação do primeiro disco do grupo. "Todos os dias, íamos aos programas de rádio com o disco debaixo do braço para divulgá-lo. Na maioria das vezes, os radialistas nos humilhavam, deixando a gente esperar a manhã toda. O programa acabava e, quando o apresentador passava por nós no corredor, falava para voltar no dia seguinte." 

 

O lançamento de “Raulzito e Os Panteras foi tão mal que, até recentemente, a maioria dos fãs sequer sabia da existência do álbum, que já tem mais de meio século de gravado. "Todos achavam que a carreira de Raul tinha começado com ‘Krig-Ha Bandolo’, em 1973", observa Silvio Passos, fundador e presidente do fã-clube oficial Raul Rock Club. 

 

Kika Seixas, uma das esposas de Raul e responsável pela administração de sua obra, lembra ainda que o cantor lhe contou que, numa dessas emissoras de rádio, um radialista chegou a pegar o disco e tentar quebrá-lo para depois jogá-lo no lixo.

 

Hoje, material de colecionador, o disco custa caro. Reza a lenda que as poucas dezenas de cópias que o hoje cult  "Raulzito e Os Panteras" vendeu, na época do lançamento, foram as que Dona Maria Eugênia, mãe de Raul, comprou para presentear os familiares e amigos, em Salvador. 

 

"O Raul dizia que a EMI-Odeon gravou o disco pela obrigação de ter uma cota de artistas brasileiros em catálogo. A gravadora só se interessava mesmo em vender os Beatles no Brasil e não fez o menor esforço pelo LP", diz Sylvio Passos. A frustração com o lançamento do disco traz Raul de volta a Salvador. Mas aí é outra história. 

 

*Pacheco Maia é jornalista

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