Terça, 27 de Fevereiro de 2018 - 16:00

O exemplo de Dr. Araken!

por Francisco Viana

O exemplo de Dr. Araken!
Foto: Acervo pessoal

Morreu Araken, Araken Cabral Brito, 62 anos, médico, meu amigo de toda a vida. Quando soube da sua morte, lembrei de Albert Camus e do seu livro O mito de Sísifo,  em que afirma que a única questão filosófica realmente importante é o suicídio. E que havendo opção pela vida está deve ser relevante. 

 

Foi o que Araken, carinhosamente chamado de Dr. Araka, fez. Seguiu seu caminho, fez o bem. Cumpriu seu destino. 

 

Araken foi um homem comum. Não ocupou cargos públicos, nem cargos eletivos. Não escreveu livros, não foi famoso, nem acumulou riquezas. Mas, era acima de tudo, um médico. Como Platão e Aristoteles pensava e praticava a filosofia do bem comum. Se ele era assim, por que outros profissionais da saúde, por exemplo, não podem fazer o mesmo? Araken foi um grande amigo dos inesquecíveis tempos de juventude. Eu li O mito de Sísifo por essa época. Araken seguiu a vereda do bem sem hesitar. Era uma personalidade singular. Sabia amar. Ficava feliz com o êxito dos amigos. Seu espírito era grande.  Nunca se corrompeu. 

 

Costumava recebê-lo em minha casa no Rio de Janeiro. Ele fazia residência médica na época. E se especializava em doenças do pulmão. Era sempre uma alegria recebê-lo.  Chegava sempre com preciosas garrafas de champanhe, chocolates e presentes. Era pura energia. De um otimismo militante. No final da  vida, estava muito debilitado, mas ainda tinha esperanças de viver. 

 

Quando penso em Araken lembro da vida. Era sua mola propulsora. De um vigor contagiante. De uma persistência inquebrantável. Era um ser mágico e levava ao pé da letra a missão de ajudar os que sofriam. Na cremação do seu corpo hoje, no Jardim da Saudade, em Salvador, uma colega lembrou de Araken como médico do trabalho. Falou do seu humanismo e do cuidado com as pessoas. Se alguém estava doente e fazia exame para trabalhar numa empresa, ele cuidava antes da saúde do paciente e, depois, fazia a seleção. Era comum, como médico, ligar para o empregador e fazer a recomendação. Seu irmão, o jornalista Ipojuca Cabral Brito, assessor do governador Rui Costa, dizia que Araken “tinha uma válvul a do amor ao próximo implantada no coração” . O exemplo de Araken multiplica as melhores esperanças de todos nós nos médicos. E profissionais de todas as áreas problemas no país, como educação, transporte e segurança. Ele, vale repetir, era um cidadão comum que deixou uma herança a ser seguida. Suas ações são provas vivas que o bem, e não a indiferença, pode igualar a todos. Demonstra também que tudo não acaba com a morte. O legado permanece. Como o legado de Jesus Cristo, o filho do homem, o filósofo que há mais de dois mil anos é lembrado pela sua mensagem de fraternidade e igualdade , de respeito e liberdade. É uma mensagem que no caso do Brasil, a despeito de sermos um grande país católico, ainda estamos longe de resgatar. 

 

A trajetória de Araken - e muitos outros profissionais anônimos - bem que pode servir de antídoto contra a hipocrisia. E a promoção do bem comum, cujo esquecimento tantos problemas tem criado ao longo da história republicana.

 

* Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política (PUC-SP)

 

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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