Sábado, 28 de Março de 2020 - 10:00

Coronavírus, a favela tem pressa e o presidente não ajuda!

por Olívia Santana

Coronavírus, a favela tem pressa e o presidente não ajuda!
Foto: Divulgação

Situação especialmente dramática vive as favelas das grandes cidades brasileiras com a célere aproximação do coronavírus.  A COVID -19 prepara-se para adentrar nesses recintos abandonados onde vivem vastas camadas populacionais de nosso país.

 

Cerca da metade da população brasileira recebe até um salário mínimo, o que contrasta agudamente com os 10% mais ricos que abocanham 41% da riqueza nacional e mais ainda com o 1% dos situados no pico da pirâmide social e que fica com 28% de tudo que produzimos juntos ( Relatório das Nações Unidas -2019).

 

Na informal engenharia da favela cada casa escora sua vizinha. É regra a insegurança e a fragilidade. Se uma cai leva as outras, num dantesco efeito dominó, incontrolável, na queda enfileirada das frágeis construções.

 

A própria ideia do isolamento social, de ficar em casa para não pegar o vírus, tem um efeito confuso pra quem vive na quebrada. Ficar o dia inteiro, em que casa? Naquele cubículo? Comendo o que? Com que salário, ou gorjeta,  se o dinheiro vem do trabalho que não existe e se a gorjeta vem da atividade das ruas que estão paradas?

 

Qualquer saída minimamente eficaz, pra quem vive escorchado e  em desalento, demanda recurso, rápido, sem o que a vida não resiste, e pode ir embora mesmo sem o coronavírus.

 

É nesse quadro em si assustador, que surge uma figura tenebrosa, um presidente da República inepto, incapaz de tudo, e sobretudo de compreender que a gravidade maior do momento é a concreta ameaça a vidas humanas.

 

Causa espanto, mesmo nesta era da insensatez, os  pronunciamentos do presidente Jair Bolsonaro, em cadeia nacional, exibindo opiniões estapafúrdias. A seu juízo obscurantista, as orientações dos cientistas, dos institutos especializados do mundo inteiro estão erradas. Certo está o seu ponto de vista esquizofrênico, que estimula a quebra da quarentena, manda crianças voltarem para as escolas,  e chama a doença de  “gripezinha”, entre outros impropérios. Aposta numa realidade paralela altamente perigosa.

 

Fato é que a tática desenhada por Olávo de Carvalho, usada e abusada na campanha do “mito”, de verbalizar mentiras, ser truculento com seus adversários e setores da imprensa, tática essa  potencializada pela manipulação das redes sociais, orientada por Steve Bannon, líder da ultra-direita estadunidense, se mantem ativa na condução do mandato do capitão.

 

Nosso povo fica aturdido. E até apoiadores do presidente, não contavam  que ele fosse incapaz de flexibilizar esse modus operandi diante da gravidade da pandemia. E olhem que, pelo menos, 23 pessoas da comitiva presidencial que estiveram, recentemente, nos EUA, retornaram de lá  contaminados pelo coronavírus. Mas o capitão não se intimida, faz escárnio com as orientações da Organização Mundial da Saúde OMS e do seu próprio Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

 

A atitude do presidente, guarda sintonia com as declarações de aliados entre o quais o dono dos restaurantes Madero, Júnior Durski, que chegou a dizer que 5 mil ou 7 mil mortes, não podem ser justificativas para parar a produção. É o típico pensamento de uma elite para quem o povo simples pode ser descartado, não vale nada, assim como pensavam e agiam os antigos  escravocratas, cujos descendentes ainda estão por aí.    

 

Mas, assim como estão fazendo outros países, o principal agora é salvar vidas, evitar que a mortandade causada pela sobrecarga do nosso sistema de saúde, público e privado, chegue aos níveis do caos. A economia se recupera depois com as pessoas vivas.

 

Urge que o governo federal adote medidas estratégicas, rápidas e eficientes para dar condições minimamente dignas para que as famílias pobres possam cumprir a quarentena.  Uma delas já é o vitorioso projeto da bancada das oposições, aprovado pela Câmara dos Deputados, que derrotou a proposta do governo, de míseros R$200,00, e estabeleceu renda mínima de R$ 600,00 para trabalhadores e trabalhadoras informais, microempreendedores individuais (MEI), em até dois benefícios por família, totalizando R$1200,00. As mulheres chefas de família monoparentais, receberão duas cotas, totalizando R$ 1.200, 00.  Além disso, as medidas econômicas de proteção de empregos, devem assegurar crédito desburocratizado, sem juros, para a micro e pequena empresa, que é responsável por 70% dos empregos no país. É preciso que a Caixa Econômica acelere as entregas de unidades do Minha Casa Minha Vida, que já estiverem prontas;  que sejam descongeladas as verba para a Saúde e se invista dinheiro novo no SUS e na ampliação do SAMU 192, para que pessoas que estiverem com a COVID-19, em situações mais graves,  possam ser adequadamente transportadas para os hospitais. É também necessário  que as prefeituras  ampliem, imediatamente,  a cobertura de atenção básica, reforce equipes de atendimento nos postos de saúde de cada bairro, que organizem redes de solidariedade, como a experiência de bancos de  alimentos, com doação de cestas básicas,  material de limpeza e higiene pessoal, incluindo   o álcool em gel. Essas e outras medidas, podem contribuir com  uma melhor sobrevivência humana nas favelas. E é bom para todos que nos afastemos de situações que empurrem o povo para os descaminhos da barbarié.

 

Há uma preconceituosa cultura disseminada, segundo a qual é a pobreza que gera as doenças, e as transmite de baixo para cima das camadas sociais da pirâmide. O coronavírus derrubou esse mito. Pôs tudo de ponta cabeça. Não foram os pobres, dos quartos de despejo, que o trouxeram para os jardins opulentados das cidades. Foram os habitantes dos jardins que o levaram para a  pobreza, a partir do momento em que aqui aportaram de seus passeios internacionais.   Por isso, salvar a população indefesa é mais que um gesto solidário, é uma obrigação.

 

Em última instância, quem deveria comandar a frente em defesa da vida que está se formando com governadores, prefeitos, membros do Supremo, presidentes da Câmara, do Senado, entidades de classe e setores sociais diversos era justamente o presidente da República. Lamentavelmente, ele nunca assumiu sua condição de dirigente maior da sociedade brasileira como conjunto. Interpreta o tempo todo sua condição de representante de uma facção que lhe elegeu, sem programa, sem discussão, sem compromisso com o país.

 

É ante o vazio que se coloca pela omissão do presidente que os desafios se colocam para o Legislativo, para o Judiciário, no sentido de suprir essa lacuna, até que a sociedade e as forças políticas do país encontrem uma saída duradoura para esse quadro.

 

*Olívia Santana é deputada estadual pelo PCdoB

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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