Sexta, 23 de Agosto de 2019 - 11:00

A eugenia aqui ao lado

por Wellington Oliveira

A eugenia aqui ao lado
Foto: Acervo pessoal

Chamou a minha atenção, no último domingo (18/08), a visão de uma negra vestindo o uniforme da seleção feminina de vôlei da Argentina, numa partida amistosa contra a seleção do Brasil. O ocorrido me levou a uma breve imersão na história da população negra naquele país e a uma também rápida reflexão sobre a relação desses dois países com os negros sequestrados no continente africano.

 

Em todas as imagens anteriores que acessei da Argentina, seja através do esporte, do cinema, da política ou de qualquer outra fonte, não me ocorreu a presença de negros em nenhuma delas. A visão da equatoriana com cidadania argentina, Erika Mercado, em meio àquelas outras atletas, todas brancas, me deslocou de um confortável lapso.

 

Sabia, até aqui, da história da Argentina, apenas a distinção da colonização espanhola ao invés de portuguesa. O breve olhar para a saga da população negra no país vizinho, me mostrou a drástica redução do contingente de negros no curso dos últimos dois séculos. Dos quase 50% da população, no início do século XVIII, hoje restam algo em torno de 3%, conforme dados censitários.

 

O projeto de eugenia fez uso de artifícios diversos. A utilização de homens negros nas frentes de batalha das guerras da independência e nas posteriores guerras civis; a venda massiva de negros no período pós-abolição da escravatura, para países onde o sistema ainda perdurava (no Brasil, a escravização se manteria por mais de 80 anos); e a aglutinação geográfica da população negra em ocasiões de epidemias, são apenas alguns dos exemplos.

 

A visão cotidiana que a Argentina mostra ao mundo é de um país eminentemente branco, com traços muito discretos de miscigenação, não parecendo jamais ter havido um sistema escravocrata naquele país. Os hermanos conseguiram varrer para debaixo do tapete a sujeira e o sangue que mancham a história do país. Tiveram êxito naquilo que o Brasil tenta há mais de um século, sem sucesso. Aqui, a despeito das tentativas, os negros continuam vivos e resistindo.

 

*Wellington Oliveira é jornalista

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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