Sexta, 19 de Abril de 2019 - 16:00

Protagonismo do Século XXI: A Rede de Cooperação Nordestina

por Alisson Sousa

Protagonismo do Século XXI: A Rede de Cooperação Nordestina
Foto: Acervo pessoal

A recente iniciativa liderada pelo Governador da Bahia de constituição do Consórcio dos Estados do Nordeste sinaliza a disposição dos líderes regionais em buscar formas colaborativas, compartilhadas, associadas e em rede de desenvolvimento econômico da região. O Estado da Bahia já possui diversas formas de gestão para execução dos serviços públicos implementadas e em atividade, tais como a Parceria Pública Privada (PPP), o modelo de fundação pública de direito privado, a Organização Social e as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público e, mais recentemente, na área da saúde, os Consórcios Públicos para a Gestão das Policlínicas Regionais  (um modelo que envolve as prefeituras e o estado na constituição e no financiamento) e, na área de desenvolvimento econômico, a Empresa Baiana de Ativos – BahiaInveste, que estrutura projetos e viabiliza garantias para a captação de recursos no mercado de capital. Essas experiências colocam a Bahia na vanguarda nacional e cria abertura do estado para as parcerias internacionais, reduzindo assim a dependência de recursos do governo federal, tão característica dos estados do Nordeste que sobreviveram durante muito tempo dependendo dos recursos federais.  Mas o que essa região possui que pode despontar como o novo vetor de desenvolvimento do Brasil no século XXI?

 

Antes de mais nada, alguns dados sobre o potencial da rede de estados nordestinos, sobretudo no comparativo com o estado mais rico da federação, São Paulo, são importantes. A população dos 9 estados da Região Nordeste (Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão) é de cerca de 56 milhões de habitantes, enquanto a população de São Paulo é de 45 milhões de habitantes. A área total dos estados, praias de grande potencial, belezas naturais e um turismo que pode avançar muito mais, é de 1,5 milhões de Km², mais de 6 vezes o tamanho do estado de São Paulo. Quando o PIB (2016) é confrontado, é aí que está a grande disparidade a favor de São Paulo. O PIB de São Paulo é de 2 trilhões de reais, o equivalente a 32,5% do PIB do Brasil, 2,3 vezes mais que o PIB da região Nordeste, que é de 850 bilhões, equivalente a 14,4% do PIB brasileiro. Já o PIB per capta de São Paulo é de 45 mil, enquanto o da região é de aproximadamente 15 mil.

 

Como uma região dessa magnitude, que foi o berço da colonização portuguesa, mas que teve também a presença e o interesse de holandeses e franceses no seu território, perdeu tanta força econômica comparado ao poder econômico centralizado no estado de São Paulo? Quantas empresas com faturamento acima de 1 bilhão têm seu centro decisório na região Nordeste? Como esta região está se preparando para a 4ª revolução Industrial? Para Klauss Schwab, presidente do Fórum Econômico Mundial, a 4ª Revolução Industrial não diz respeito apenas a sistemas e máquinas inteligentes e conectadas. São novas descobertas ocorrendo simultaneamente em áreas que vão desde o sequenciamento genético até nanotecnologia, das energias renováveis a computação quântica. É a fusão dessas tecnologias e a interação entre domínios físicos, digitais e biológicos”. Tudo isso pode ser desenvolvimento de forma colaborativa e em rede de cooperação, compartilhando custos e proporcionando ganhos coletivos e em escala.

 

E essa é a grande oportunidade do Nordeste. Não só o compartilhamento de compras para garantir a economicidade nos preços dos produtos, mas compartilhar saberes e práticas, experiências e tecnologia com vista a redução dos gastos públicos, busca de financiamento de forma coletiva para o desenvolvimento da região e do seu povo com características tão singulares.  Os estados podem criar um banco de desenvolvimento dos estados do Nordeste? Ou um fundo de investimento para atração do capital de risco, semelhante à experiência de desenvolvimento de Israel em que para cada R$ 1,00 do estado o capital de risco aportou R$ 2,00?

 

No Iphone da Apple, as duas tecnologias essenciais, Internet e o GPS, foram desenvolvidas com recursos públicos e militares que Steves Jobs aproveitou. O novo avião da Boeing, o 787 Dreamliner, recebeu mais 5 bilhões de subsídios do tesouro americano. Estas experiências reforçam o papel do estado no desenvolvimento de inovação e de novos negócios e que os estados do Nordeste podem se utilizar do seu poder de compra para o desenvolvimento da própria região, desde que realizado de forma coordenada, articulada e de acordo com a vocação de cada localidade.  

 

No compartilhamento das boas práticas, qual a melhor experiência da região para o desenvolvimento da sua população rural? Quais foram as estruturas e as boas práticas que produziram melhores resultados? Na área de educação, como sabemos, nos Estado do Ceará e de Pernambuco, seus alunos conseguiram as melhores notas no IDEB. Quais as boas práticas nesses casos? Na segurança pública, a Polícia da Bahia, no último carnaval inovou com uma tecnologia de reconhecimento facial. Essa tecnologia pode ser compartilhada com os demais estados, utilizada e aprimorada de forma coletiva.

 

Na ciência e tecnologia, por que cada fundação de amparo à pesquisa tem que conceder o apoio e o fomento à pesquisa e à inovação de forma separada? Por que não podemos realizar um edital em conjunto? Editais que resolvam problemas históricos dos estados na área da tributação, segurança pública, educação, saúde, agua no meio rural, habitação, sistema penitenciário, lixo urbano e das áreas turísticas? Existem problemas comuns? Claro que sim. Existem problemas e necessidades semelhantes para uma mesma solução. Com tanto talento e criatividade da nossa juventude, universidades e institutos federais, grandes ideias e projetos seriam originados com um custo baixo, senão irrisório.

 

E o turismo na região? Por que não um programa de turismo destinado aos servidores públicos, ativos e inativos, dos estados nordestinos para conhecer os destinos do próprio Nordeste?  Se o Nordeste encanta quem é de fora, deve encantar a sua população também. Um programa para conhecer as praias mais bonitas e de aguas mornas do Brasil, para conhecer eventos culturais característicos da região: Carnaval, São João, etc. Programa na qual os servidores tivessem descontos e condições especiais de pagamento. Toda forma de incentivo ao turismo é vital para o desenvolvimento do Nordeste.

 

Por tudo isso, saúdo a proposição de criação do consórcio público pelos estados do Nordeste e considero a iniciativa de desenvolvimento em rede e de forma compartilhada um marco para o desenvolvimento da região, sobretudo para o desenvolvimento social do seu povo historicamente relegado pelo governo federal, e que conseguiu um pouco mais de dignidade nos últimos anos e não quer perder. Quer avançar! Parabéns a Bahia! Parabéns ao Nordeste!

 

*Alisson Sousa é formado em administração, especialista em desenvolvimento local e mestrando em Políticas Públicas. Atualmente está como Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação Estatal de Saúde (FESF) e presidente da Associação Nacional de Fundações Estatais de Saúde (ANFES)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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