Sexta, 12 de Abril de 2019 - 16:00

Ensino a distância: risco para a saúde humana e animal

por Altair Santana de Oliveira

Ensino a distância: risco para a saúde humana e animal
Foto: Acervo pessoal

Será possível ser um médico-veterinário, zootecnista, médico ou engenheiro por meio de um ensino a distância? Como se preparar para exercer a Medicina Veterinária, por exemplo, nas áreas de cirurgia, exames e análises clínicas, laboratório, inspeção de produtos de origem animal, defesa sanitária animal, patologia, dentre outras, sem o estudo presencial? Que qualidade esperar dos profissionais formados por esse tipo de graduação, para atender a sociedade? É sobre este assunto que quero apresentar nossas considerações, para você leitor.

 

O mundo está em franca mudança. Estamos navegando dentro da quarta onda da revolução industrial, onde a tecnologia galopante vem provocando mudanças drásticas, capazes de fazer desaparecer do mercado empresas gigantes, líderes mundiais. Startups, aplicativos, equipamentos eletrônicos de alta tecnologia, vêm mudando o planeta. Estamos no mundo do Uber, Waze, Airbnb, dentre outros e, quem tentar lutar contra a maré ou não compreender a força das mudanças e não se adequar a elas ficará para trás. Há em curso uma total mudança de paradigmas.

 

Assim vejo o curso a distância, denominado EAD. Uma novidade que teremos que nos adaptar, remar a favor da onda, porém atentos à necessidade de regulação. Destarte, fazer uso dessa modalidade de ensino com inteligência e apenas onde for possível. Precisamos navegar nesta onda juntos, ou seremos varridos por ela.

 

Os principais cursos profissionais de nível superior, que exigem muito conhecimento prático e presencial, estão enfrentando essa mudança, que interfere na qualidade da formação profissional, o que poderá pôr em risco os serviços prestados à sociedade. Digo poderá, porque se usado com parcimônia, dentro dos limites preestabelecidos, poderá trazer ganhos à qualidade do ensino superior.

 

Os alunos atuais estão mais preparados para enfrentar essas mudanças. Alguns não toleram o ensino formal, no modelo presencial, quando o assunto é exclusivamente teórico. O ensino a distância permite que profissionais com reconhecido saber, verdadeiras sumidades, possam estar acessíveis a todos os alunos, o que muitas vezes no ensino presencial não seria possível.

 

Tem sido motivo de grande discussão interna nos Conselhos Federais e Regionais de todas as profissões o Ensino a Distância – EAD, pois salta aos olhos a fragilidade e limitações dessa modalidade de ensino na formação de profissões onde a prática e o ensino presencial são indissociáveis, naquelas onde o ensino a distância não é possível substituir, pois a presença física do professor e a infraestrutura de apoio são indispensáveis (uma sala de cirurgia, um laboratório, etc.)

 

Para o Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia – CRMV-BA, responsável pelo registro profissional dos Médicos Veterinários e Zootecnistas, é ferir gravemente a formação dos nossos profissionais, pela indispensável necessidade do ensino presencial e prático.

 

Já sofremos um enorme desgaste na qualidade de nossa formação com a proliferação de cursos de Medicina Veterinária e Zootecnia em nosso país, algumas faculdades com qualidade duvidosa. O estado da Bahia colabora muito com a estatística assombrosa e exagerada, que é inversamente proporcional à qualidade do ensino. Vejam que até a década de 1980 só tínhamos uma faculdade de Medicina Veterinária na Bahia, hoje são vinte e quatro (24) instituições com cursos autorizados pelo MEC. No Brasil a estatística extrapola impensáveis 368 instituições com cursos autorizados.

 

A sociedade demanda profissionais em escala aritmética e nós estamos formando em escala geométrica. Essa conta não tem como fechar e profissionais estão sendo formados em elevado número, engordando as altas taxas de desemprego do país.

 

O Ministério da Educação tem aprovado de forma discutível, uma quantidade enorme de vagas para cursos presenciais e a distância. São 368 cursos autorizados na modalidade presencial com 52,2 mil vagas autorizadas e 13 cursos a distância com 47,8 mil vagas, sendo que, em algumas instituições, o número de vagas dos cursos EAD já ultrapassa em muito o dos cursos presenciais.

 

O Conselho Federal de Medicina Veterinária, preocupado com a situação aqui exposta, emitiu a Resolução nº 1.256/2019, proibindo o registro nos Conselhos Regionais de egressos de cursos EAD e determinando a abertura de processos ético-disciplinares em desfavor dos médicos-veterinários e zootecnistas que ministrarem aulas ou estiverem envolvidos na gestão dos cursos EAD. O CFMV e o CRMV-BA defendem que as disciplinas no modelo EAD estejam limitadas a 20% e apenas para disciplinas teóricas, e os outros 80% deverão ser na modalidade presencial, conforme prevê a Resolução nº 595/1992.

 

A discussão sobre esse tema precisa envolver a sociedade civil organizada, os parlamentares, os nossos profissionais, pois, a situação requer ações urgentes, e não podemos assistir inertes a deterioração do ensino superior da Medicina Veterinária, da Zootecnia e das demais profissões, tão necessárias na prestação de serviços para a nossa população.

 

Conclamamos os parlamentares, sindicatos e associações que defendem a educação de qualidade e todos os Conselhos Profissionais a se engajarem nessa luta, contra os cursos a distância que ultrapassam o limite de 20%, para as profissões onde as atividades práticas demandam intensamente o ensino presencial.

 

Alertamos ao Ministério da Educação para a necessidade de analisar com critério suas decisões, abstendo-se de promover a proliferação de cursos de nível superior, de liberar um nível exagerado de vagas e de autorizar cursos de ensino a distância, incompatíveis com cursos de enfoque prático, como os de Medicina Veterinária e Zootecnia.

 

*Altair Santana de Oliveira é presidente do CRMV-BA

 

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

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