Terça, 25 de Setembro de 2018 - 15:00

A Praça da Matriz

por Luiz Tadeu Leite Vieira

A Praça da Matriz
Foto: Acervo pessoal

Segundo definição da nossa língua portuguesa, a palavra praça vem do latim platea, que significa espaço público urbano, lugar público e amplo geralmente rodeado de edifícios e onde desembocam várias ruas. Em geral, este tipo de espaço está relacionado à ideia de haver prioridade ao pedestre e não acessibilidade de veículos.

 

No Brasil, a ideia de praça normalmente está associada à presença de ajardinamento, sendo os espaços conhecidos por largos correspondentes à ideia que se tem de praça em países como a Itália, a Espanha e Portugal. Por isso, neste sentido, um largo é considerado uma "praça seca", ou seja, sem jardins.

 

Nas minhas andanças por essa Bahia de meu Deus tenho observado que as cidades interioranas nutrem um carinho especial pelas praças urbanas e em especial aquela conhecida como “Praça da Matriz”.

 

Tanto os cidadãos como os poderes públicos municipais têm se empenhado em conservar tais logradouros.

 

É comum vermos tais praças ilustrando cartões-postais das cidades como um chamariz a sua visitação.

 

A praça é o centro de tudo. Em tal local os munícipes se reúnem, se congregam. As festas cívicas e religiosas são ali realizadas. Em junho, geralmente, as praças estão repletas e enfeitadas de motivos juninos. Barracas, fogueiras, etc.

 

Não é raro em dezembro se encontrar nas praças presépios, quermesses e outros mimos natalinos.

 

E a festa do padroeiro?

 

Local de concentração dos moradores da cidade melhor não há. É lá que, que depois das novenas, encontramos bandinhas, fanfarras alegrando os passantes; as meninas desfilando com seus vestidos novos e a famosa barraquinha dos leilões de prendas geralmente ofertadas pela própria comunidade.

 

Ops! Não podemos deixar de lembrar das procissões e romarias quando vemos e sentimos a fé do povo aflorando a cada passo ao seguir o andor do santo de sua devoção.

 

São bonitas de se ver as praças das cidades do interior do nosso Brasil. São bonitas de se ver as praças das cidades do interior do a nossa Bahia.

 

Assim também é a Praça da Matriz de minha terra.

 

Ah! Não. Assim era a Praça da Matriz da minha terra!

 

Por isso digo e repito, que era bonito de se ver a Praça da Matriz da minha cidade Natal.

 

E constato isso com muita tristeza.

 

Quando criança ali brinquei, com meus amigos e colegas de escola. Ali era o local de encerramento das atividades cívicas e festivas. Quantas vezes, no coreto mor da matriz, recitei poesias ao final dos desfiles das comemorações escolares. E eram muitas: Sete de setembro, 2 de julho, dia da árvore, entre outras.

 

O então pároco da cidade não media esforços para manter a praça linda, cuidada e por isso, exuberante. Ao implantar na cidade a “Cruzada Eucarística” (movimento que tinha a intenção de incentivar as crianças para que, depois da primeira Eucaristia, permanecessem na igreja)” estimulava as crianças/adolescentes, membros da congregação, executarem também ações de cidadania.

 

Local onde nos reuníamos após a missa, geralmente, nos coretos da praça, para que o padre apusesse o “compareceu” na nossa caderneta de presença, presentearmos com santinhos, e efetivar a “inspeção” dos nossos jardins, já que grupos eram formados e cada um deles responsável pela conservação dos canteiros.

 

Lembro-me bem que havia uma concorrência sadia e salutar no sentido de que seu jardim ficasse bonito e florisse do que o do colega.

 

Os coretos eram locais que, no dia a dia, serviam para o nosso entretenimento e nas ocasiões especiais a nossa Filarmônica ali se instalava com sua música para acalentar e alegrar o povo que, a época, já sofria as agruras dos poderes públicos.

 

Hoje a Praça da Matriz da minha cidade está abandonada. Não terra já não mais faz jus ao epiteto de “Cidade Jardim”.

 

E, repito, constato isso com muita tristeza.

 

Não podemos mais sentar na porta, para com o vizinho prosear, ver e acompanhar o burburinho comum, especialmente aqueles dos dias festivos, ou atém mesmo, para ver a banda passar, como diz Chico Buarque na sua música “ A Banda”.

 

Área tipicamente residencial, com casas antigas rodeando a imponente Igreja, como que a abraçá-la, nas quais era servido pelos moradores, o café da manhã as crianças no dia de sua primeira Eucaristia.

 

Hoje, o Poder Público, na ganância de arrecadar e abocanhar impostos, permite a instalação de lojas comerciais que destoam de todo um conjunto arquitetônico seguido há muitos anos.

 

Há nos dias atuais, ponto de táxi, bem em frente a Igreja, autorizado pelo gestor municipal.

 

Em razão da aglomeração de pessoas/passageiros é comum encontrarmos vendedores ambulantes, inclusive alguns que já fixaram seu “ponto” nos jardins da praça.

 

Também houve concessão para estação de “Vans” ao lado da igreja que reúne, no mínimo, dez veículos que lá ficam estacionados, sem falar naqueles que são ali lavados e “reparados” como que se estivessem em uma verdadeira oficina mecânica, a céu aberto.

 

Outros proprietários de ônibus coletivos fazem da praça verdadeiro estacionamento. Sem falar nos caminhões tanques …

 

Esquecem os gestores do Município que o acúmulo de veículos estacionados, retiram a visão da praça como um todo, da igreja matriz, verdadeiro cartão-postal da cidade e, pior, facilita a ação de marginais, o que traz insegurança aos moradores e frequentadores da Praça.

 

Além de tudo isso, sofremos ainda com a falta de iluminação nos postes da praça, de fiscalização, de limpeza e a pintura que, a depender do gestor é colorida de forma grotesca, espalhafatosa, com as cores do seu partido político. As árvores mal podadas e suas folhagens a reclamar cuidados.

 

E, repito novamente, constato isso com muita tristeza.

 

Que pena!

 

Não mais podemos sentar naquele banco da pracinha, como interpretava Ronnie Von, na canção da autoria de Carlos Imperial intitulada “A Praça”. Os passarinhos já não nos reconhecem, pois não há sequer local para seus ninhos. Não entendem nossa decepção. E sequer sabe porque emudecemos.

 

Não vemos mais festividades na praça da matriz.

 

Se Bruno ou Marrone dormissem na praça, por certo não seriam acordados por guardas, porque ali não há registro de policiamento. Seriam acordados, sim, por marginais.

 

É lamentável.

 

Parafraseando Herivelto Martins que criou a canção “Vão acabar com a Praça Onze” encerro esse desabafo, com tristeza dizendo: Vão acabar com a praça da matriz da minha terra.

 

Mas, a praça existe alegre ou triste. Em nossa imaginação a Praça é nossa, quer queiram quer não.

 

Um dia, quem sabe, voltaremos a ter orgulho da nossa Praça da Matriz para podermos pôr em prática as lições de Olavo Bilac que na sua poesia “A Pátria” já nos exortava a amar com fé e orgulho a terra que nasceste.

 

* Luiz Tadeu Leite Vieira é desembargador do TRT-5

Luiz Tadeu Leite Vieira - Nascido em São Gonçalo dos Campos (BA), é graduado em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1977. Advogado militante na área trabalhista no período de 1977 a 1988 quando foi aprovado em concurso público para o cargo de Juiz do Trabalho Substituto.  Em 1989 foi promovido ao cargo de Juiz Presidente de Junta de Conciliação tendo presidido as Juntas de Itamaraju, Irecê, Senhor do Bonfim, Camaçari, Salvador, no Estado da Bahia  e Aracaju, no Estado de Sergipe. Foi vice-presidente da Amatra 5 no biênio 1995/1997.em 2001, foi promovido, pelo critério de merecimento pra o cargo de Desembargador Federal do Trabalho da Bahia. Integrou a Mesa Diretora do Tribunal no biênio 2011/2013, exercendo o cargo de vice-corregedor regional, e no biênio 2013/2015, no cargo de corregedor-regional. Atualmente integra a 3ª Turma.

 

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

 

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